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girl on film

21
Mai13

Um filme, uma mulher. Por Johnny Kino





Filme: - MulherKathryn Bigelow
(IMDb)

A Sofia diz: 
- No caso do Johnny, o título da iniciativa devia ser: "Uma mulher entre dois (aqui, leia-se muitos) homens"


Considerações preliminares…

Penso que devo tecer algumas considerações sobre o modo como me posiciono em relação às questões da mulher (women’s issues, diriam os nossos amigos anglo-saxónicos). E a primeira consideração a fazer é que não gosto desta diferenciação. Evoluímos demasiado para continuar a dividir o que nos rodeia como sendo preto ou branco, ou sendo de homens ou mulheres. O raio do discurso político actual  contudo, com o objectivo de defender a mulher, acaba por sublinhar a diferença perniciosa que, lamentavelmente, sempre existiu. Quando falamos em igualdade de género os discursos são, muitas vezes… (estou à procura de uma expressão que melhor defina isto, mas não consigo) Parvos!
Em primeiro lugar não podemos querer igualdade para o que é diferente. Não quero com isto, nem de perto nem de longe, afirmar que A é mais do que B. Apenas diferente. Contudo, acho de elementar justiça que quer homens, quer mulheres, tenham os mesmos direitos e as mesmas condições de acesso e execução seja a que nível for. Mas, assim, estamos a falar de Equidade e Justiça e não de Igualdade. O conceito de igualdade é, a meu ver, muito mais redutor e cego.

Conheço, também, as lógicas de raciocínio que levam a que se criem artificialismos, como quotas, para que as mulheres tenham acesso a cargos de determinado tipo. Raios! Isto mexe comigo! Não consigo ultrapassar o meu próprio bloqueio que me diz que, ao fazê-lo, estamos a denegrir a mulher reconhecendo, à partida, a sua incapacidade de atingir, por meios próprios, tais cargos (sim, eu sei que ainda é mundo androcêntrico mas, mesmo assim, não acredito neste tipo de estratégias que atacam o sintoma e não o problema). É um mal necessário numa primeira fase de desenvolvimento? Não consigo aceitar este facto. Deixemo-nos de tretas e trabalhemos estas questões desde cedo. Coloquemos os putos a reflectir e a agir sobre estas questões. Continuo a achar que as casas não se começam pelo telhado…

Por outro lado (e eu assumo-me como feminista), o discurso feminista ferrenho não me parece que contribua positivamente para um diálogo equilibrado e construtivo. O feminismo não pode (porque não o é!) o oposto do machismo. Mas tal é apresentado por alguns, o que aliena parte do auditório, que não quer substituir um exagero por outro. Eu entendo que, muitas vezes, para sermos ouvidos, precisamos de falar mais alto. Contudo, julgo que é tempo de serenarmos e concertarmos estratégias.

Eu prometo que me calo com esta componente politiqueira de género. E faço-o congratulando a Sofia e a sua iniciativa, que me parece inserida numa lógica de reflexão integrada. Parece-me que uma das estratégias passa exactamente por isto, por reconhecer e valorizar o trabalho desenvolvido, apontando caminhos trilhados para que outros os sigam e continuem a desbravar e nivelar territórios... Kudos Sofia.

Primus inter pares

A lengalenga anterior só aumenta a minha responsabilidade na escolha da figura feminina para este desafio da Sofia. É castiço perceber que, quanto mais aparentemente simples é o desafio, mais difícil a resposta. Estive às voltas nos baús da minha mente a tentar encontrar uma figura que gostasse, efectivamente  de falar. O problema é que surgiram várias. Desde as primeiras encarnações de objectos sexuais de celulóide  como Gloria Swanson ou Agnes Ayres, às loiras de Hitchcock (e, mesmo não sendo loira, estive quase, quase para enveredar pela Norma Bates, que considero uma das mulheres mais interessantes da história do cinema), passando pelas incontornáveis, como Claudia Cardinale, Lauren Bacall, Marilyn Monroe ou Audrey Hepburn, ou por aquelas que abomino, como a Kristen Stewart.

Assim, escolher um filme e uma personagem feminina é complicado! Nas diferentes tentativas de escolha saí sempre frustrado… Como sou ligeiramente anárquico, e aprecio uma boa e saudável vandalização, altero ligeiramente as regras do jogo (posso?) e escolho não uma personagem, mas uma personalidade que não se encontra à frente, mas sim atrás das câmaras – Kathryn Bigelow

Faço-o, simplesmente, porque esta mulher é um portento! Uma profissional que vingou num mundo tradicionalmente masculino (e sem quotas!). Gostando-se ou não da sua filmografia, um dos aspectos mais interessantes é a tipologia pela qual acabou por enveredar. Bigelow trata a acção por “tu”, dominando o conceito e os métodos. Conhece os meandros da produção e da escrita. Consegue seleccionar o essencial, descartando o acessório. Os seus filmes revelam que não há áreas privilegiadas para homens ou para mulheres, mandando às malvas possíveis relações directas e artificiais entre o sexo feminino e subgéneros tipificados, como comédias românticas.

Tem uma definição e estilo visual muito próprios. Se hoje nos apresenta um estilo cru e nem sempre fácil de digerir (The Hurt Locker e Zero Dark Thirty), ajudou também a redefinir os standards para o género, tendo realizado um dos grandes filmes de acção da década de 1990 – Point Break. Uma conjugação perfeita entre adrenalina e narrativa inteligente, que ajudou a lançar aquele que nos desgraçou a todos, mostrando-nos que, afinal, não passamos de um conjunto enorme de pilhas Duracell (Neo, devias ter escolhido o outro comprimido!). E, por falar em distopias, realizou ainda um muitíssimo interessante Strange Days, fazendo-nos deambular por um futuro quase surreal (de tão próximo que está), onde o real, o virtual e o voyeurismo se entrecruzam de modo a criar uma atmosfera peculiar que conseguiu traduzir algumas das angústias e receios da passagem do milénio.

Como qualquer personalidade que se preze, é necessário que a mesma tenha associado a si algumas curiosidades que possam servir como desbloqueadores de conversa. E que melhor maneira de iniciar qualquer uma do que perguntando: “Sabes quem foi a primeira mulher a ganhar um Óscar pela realização?” Bigelow tornou-se, desta forma, um assunto de Trivial Pursuit com a realização do The Hurt Locker, “roubando” o Óscar mesmo debaixo do nariz do seu ex-marido que gostaria de o ter ganho pela orgia azul que foi Avatar. Não é que os Óscar sejam exemplo do que quer que seja (ou mesmo sinónimo de qualquer tipo de justiça), contudo servem de barómetro social, ajudando a aferir o que vai mudando no universo cristalizado de Hollywood que, queiramos, quer não, é o grande palco de produção do cinema mundial (excluo intencionalmente Bollywood por ter um universo-alvo claramente menos amplo).

Ao reflectir sobre os porquês que me fazem arrebitar as orelhas quando sei que irá sair um filme realizado por ela, dei por mim a pensar que os projetos em que Kathryn Bigelow se envolve parecem ter um denominador comum – transmitem segurança. Mesmo as escolhas mais alucinadas, como colocar Harrison Ford como o capitão russo do submarino K-19, O fazedor de viúvas (adoro este título!), Alexei Vostrikov, são apresentadas de modo seguro, como se da única escolha lógica se tratasse. Se concordamos ou não, isso é outra história…

E Bigelow não parece ser uma mulher muito dada a folclores de género. Apesar de muitas das suas histórias serem protagonizadas por homens, os seus filmes, mais do que destacar o género masculino ou feminino, destacam a história. O centro dos seus filmes são, normalmente, boas histórias. E, nelas, há personagens femininas para vários gostos: as interessantes (nunca quis tanto ser conduzido numa limusine como naquela sob o comando de Angela Bassett, cuja interpretação impediu que Strange Days se eclipsasse nos seus devaneios mais virtuais, mantendo-nos firmemente com os pés assentes na terra); as mazinhas (a Jamie Lee Curtis deve ter visto Cobra várias vezes a mais – pensando nisto, qualquer vez, é vez a mais – antes de fazer Blue Steel); as intempestivas (Lory Petty transmite com os olhos um universo de emoções que, nem sempre, o corpo acompanha) e as arrebatadoras (Jessica Chastain cresce no ecrã, mesmo à frente dos nossos olhos).

Efectivamente, este ano reforcei os meus gostos e simpatias pela senhora. Zero Dark Thirty apresenta, de forma nua e crua, as desventuras de uma agente da CIA que, por motivos óbvios, quase ninguém conhece, em busca do homem que quase ninguém queria conhecer. Assim, à partida, imaginaria esta história contada de outra forma. Ali algures entre a pirotecnia e as bandeiras americanas ao vento (em câmara lenta e ao pôr-do-sol) de Michael Bay e o disparate desconchavado de quase qualquer outro realizador de blockbusters pipoqueiros… Fiquei surpreendido com a simplicidade e realismo brutais do filme e das diferentes interpretações. E, vendo bem as coisas, é exactamente isto que procuro, seja em quem for, a capacidade de continuar a ficar surpreendido…








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