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girl on film

24
Mai13

Um filme, uma mulher. Por ARita Santos






FilmeKim Bok-nam salinsageonui jeonmal. MulherKim Bok-nam


Quem não magoou a Kim Bok-nam?


Antes de discorrer livremente sobre a Mulher do título e, antes de vermos onde é que isto vai dar, deixem-me introduzir o motivo que aqui me trouxe, além, do óbvio e fofinho convite da Sofia Santos. Cutxi, cutxi. Correndo o risco de me assemelhar a uma feminista empedernida acredito que ainda há muito por fazer no campo da emancipação do Mulher. E o cinema funciona tanto como ficção como reflexo da sociedade que o produz. Não sou apologista da glorificação de mulheres pisadas, magoadas e, enfim, quebradas no cinema. Sobretudo a violência sexual, choca-me. Mas também não quero com isso afirmar que as mulheres devem surgir em cena sempre como umas vencedoras. Isso seria uma mentira e não serviria a 7ª Arte. As mulheres sofrem. O tratamento que é dado a tais situações é que me deixa bastante ambivalente quanto a filmes como “I spit on your grave” (1978) “The Last house on the Left” (1972) e, generalizando, o género sexploitation. (Acho que já afugentei algumas alminhas com esta minha confissão). Perdoem-me se não acredito que o objectivo dessas obras é “demonstrar a luta das mulheres contra os seus perseguidores”. Senti, desde sempre, que a longa exposição das cenas de abuso físico e psicológico, que chegava a ocupar 30 minutos de filme e procurava apelar à parcela de indivíduos da audiência com fantasias do género. (Acabei de ofender outras tantas almas). Agora, não me venham com m***** feministas onde uma mulher que é espancada até ficar numa polpa de sangue, violentada de todas maneiras e feitios vira mega-cabra que utiliza o sexo que lhe quiseram tomar para prostrar os que a feriram. Fico com ganas de fúria homicida quando me vêm com o “discurso”. É uma questão de sexo, ponto. Apesar de ser fã de finais felizes e de positividade escolhi abordar “Bedevilled” e a sua personagem principal. É uma das obras mais gráficas que vi nos últimos anos, no que toca à exploração da Mulher e que exemplifica o melhor e o pior do género, com todos os exageros cinematográficos associados. Por isso, vou tentar, através de uma abordagem mais extensa expor e contextualizar os motivos individuais, societais, culturais e religiosos por trás de uma obra do género e não apenas a herança cinematográfica. ATENÇÃO SPOILERS: A partir daqui leiam por vossa conta e risco.





Bedevilled” é a estória de duas amigas nascidas numa pequena ilha ao largo da Coreia do sul. A elegante Hae-won (Seong-won Ji) vive num apartamento próprio em Seul. A tez delicada e a sofisticação não chegam para esconder um feitio irascível que ainda não lhe trouxe consequências mais graves do que uma vida solitária. Bok-nam (Young-hie Seo) não teve a mesma sorte. Ela é uma prisioneira na ilha onde sofre silenciosa. Ela trabalha de sol a sol, escravizada pelas “tias”, um conjunto de velhas decrépitas com pouco mais que fazer do que passar os dias a enumerar os defeitos de Bok-nam e a ter certeza de que ela sabe o seu valor ali: nada. (Começa bem, portanto). À medida que as hárpias desatam a língua ficamos a saber que não se sabe quem é o pai da filha de Bok-nam. Como é óbvio, a culpa é dela, de ter sido abusada por todos os homens da ilha. A porca. A porca que passa os dias a cavar a terra para dar sustento a toda a gente naquela ilha, já que os homens passam os dias a preguiçar ou a fornicar com as pegas que trazem para debaixo do próprio tecto de Bok-nam. E quando não há prostitutas Bok-nam está ali mesmo, ao serviço do homem com mais tesão no momento. Vale tudo. Mas repito ela é que é a porca. Hae-won por via de ter sido obrigada a tirar uns dias de férias do trabalho depois de agredir uma colega regressa à ilha. Ela assiste a todas estas situações e, mesmo tendo sido salva de uma violação no passado por Bok-nam, sabem o que ela faz? Nada. Estão familiarizados com a “solidariedade feminina”? Uma pista: não é isto. Ela passa os dias a assistir e a calar. Nem é capaz de oferecer palavras de conforto a Bok-nam, por que ela é, à superfície assim como de fundo, uma cabra egocêntrica e egoísta. E como se por essa altura não estivéssemos já com uma sensação de revirar entranhas, eis que chega a cereja no topo do bolo: a mais do que leve suspeita de que o “marido” de Bok-nam também está a abusar da menina. Todos podem ali saber disso e ninguém se importa. Hae-won, certamente que não. Perturba, apenas não é nada que valha a pena agir… A sensação de amargura chega ao esófago, já próxima do vómito. A mãe infeliz é a única que luta pela pequena. Apesar de um optimismo profundamente estúpido, quando se convive com “mimos” diários como: “se um porco e um cão aprendem quando lhes batemos por que é que tu não?” ela ainda sonha com a vida na cidade. O amor por Hae-won é puro e desprovido de interesse quando o inverso não é verdade. A amiga de Seul apenas presta atenção a Bok-nam porque esta lhe pode proporcionar conforto no lugar. Quando por fim, o plano de fuga sai gorado e a própria filha acaba morta Bok-nam perde a pouca sanidade que lhe resta e agarra-se a uma fúria homicida. O resto faz parte da lenda dos slashers. Na tradição de outros filmes de vingança sul-coreanos não se preocupem que há gore a rodos. Apenas não sei que tipo de satisfação se poderá encontrar num filme em que todos os personagens são de maus a horríveis e até a abusada Bok-nam gera, no mínimo, sentimentos contraditórios.




“Bedevilled” vive das personagens femininas. São elas que lhe conferem algum tipo de densidade. Todos os personagens masculinos são seres primários, movidos pelos instintos mais básicos. Podemos reduzi-los quase à necessidade de cumprir os desejos do corpo no momento significando isso, comer, sexo, fazer as necessidades… Uns bárbaros. Quem veja este filme pensaria que quem o escreveu (Kwang-young Choi) não gosta muito de homens. Atrevo-me a dizer que ainda gosta menos de mulheres pois elas só servem como objecto ao serviço do homem para as sevícias do momento. Mais, as mulheres, únicas personagens com consciência dos actos atrozes que são cometidos nada fazem contra eles e pior, até os chegam a incentivar! Há três tipos de mulheres em “Bedevilled”: a indiferente, a dominante e a submissa. Cada uma delas tem efeitos perniciosos sobre Bok-nam. Pois se são os homens que lhe fazem mal são as mulheres que a retêm nas trevas. Hae-won faz-se de cega, surda e muda. Critica a apatia de Bok-nam, uma mulher que foi subjugada até à incapacidade de tomar decisões, mas não é capaz de a auxiliar, seja através de conselhos ou de pequenos actos que possam tornar a vida da “amiga” ligeiramente mais agradável. Como pode uma mulher numa vida orientada meramente para o hedonismo ignorando o sofrimento dos outros criticar o que quer que seja? A dominante é uma das velhas, que pode ser intitulada de líder da cabecilha, com noções tão antigas como as de que “a mulher trabalha, a mulher gera filhos, a mulher cede a todas as vontades do homem, a mulher não levanta a mão ou a voz ao homem”. E se quisermos ser mais específicos a Kim Bok-nam é lixo. Criada nas mesmas condições que Bok-nam a “tiazinha” é a maior instigadora do clima de violência vigente na ilha. Agindo como um homem e assemelhando-se a um homem (primeiro que descobrisse que era uma mulher, ui), odeia o próprio sexo. É ela que incentiva o ócio dos homens, ao mesmo tempo que critica a lassidão de Bok-nam. Não há nada que esta última possa fazer para cair nas suas boas graças. E sem nenhuma amiga em quem se apoiar (ela chega ao ponto de criar afinidade pela prostituta a que o marido recorre regularmente), a estória foi contada demasiadas vezes para que Bok-nam a não saiba de cor. A lavagem cerebral foi um sucesso e a ingenuidade natural, a ausência de educação e estímulos exteriores fizeram o resto. Bok-nam é ainda uma vítima da sua própria submissão, muito bem ensinada. Mas não totalmente quebrada, ou não lhe dissessem que até os animais aprendiam excepto ela. Até à morte da filha ainda existia hipótese de salvação. Depois disso, a fúria vem rápido e o pavio arde rápido. 




Preze-se o trabalho do argumentista, Kim Bok-nam não é uma personagem ficcional. A personagem tem raízes ancoradas na sociedade em que se insere. Talvez apenas a ilha seja o local ideal para a existência de abuso sistemático e flagrante porque também não existe de quem o esconder. Existem muitas, demasiadas Kim Bok-nam’s por esse mundo fora. Aliás, a igualdade de género não existe. É uma utopia, uma historieta contada de ânimo leve às criancinhas para estas dormirem melhor à noite. Na Europa e EUA já se viu que o falso moralismo é a corrente dominante. Na África e Arábia por via das notícias que nos chegam é o que se sabe. Na Ásia… é um pouco mais complicado. Costumo dizer que o continente asiático que é o mais igual e o mais diferente em todo o mundo. Há paralelos em qualquer parte da terra, mas nunca nada é igual ao que por lá se passa. E alguns países ultradesenvolvidos têm práticas medievais no que diz respeito à Mulher. A Kim bok-nam é o resultado de excessos religiosos e culturais. Na Coreia do sul a religião maioritária é o Budismo, fortemente ancorado nos ideais Confucionistas que, adivinhem, prega a segregação sexual. Até recentemente (séculos apenas), o Homem era considerado superior à Mulher que deveria gerar um herdeiro para propagar a linhagem da família e zelar pela sua educação. O seu lugar era no lar e não deveria tentar ultrapassar o Homem em termos de dinheiro ou sucesso percepcionado pela sociedade. E não foi há muito tempo que as mulheres se começaram a livrar de sentimentos de culpa por terem um emprego ao mesmo tempo que criavam os filhos. As gerações mais antigas da Coreia do sul ainda se encontram bastante arreigadas a estes ideais. A violência doméstica e os crimes sexuais são um problema grave mas a exposição incorre em maior vergonha para a família, pelo que os crimes são muitas vezes silenciados pelas próprias. Assim como fazia Bok-nam, ao mesmo tempo que os outros assobiavam para o lado ou aproveitavam para incorrer em ainda maior abuso.  

A última peça para se compreender Bok-nam é a actriz que a interpreta. Por onde quer que passou, Seong-hie foi nomeada ou premiada por este papel. Uma actriz habituada a papéis de mulher sofredora e relegada demasiadas vezes injustamente para papéis secundários. Em “Shadows in The Palace” foi Wol-ryung uma ama vitimizada por possuir um segredo demasiado delicado, em “The Chaser” foi uma prostituta mãe solteira perseguida de modo implacável por um serial-killer, em “Bloody Reunion” era um dos alunos de uma professora que não era, afinal, tão boa como se faria crer. A experiência de Seong-hie foi fundamental para que ver Bok-nam no ecrã fosse tão interessante e ao mesmo tempo penoso. Ela incorpora tão bem personagens sofredoras que pode até ser difícil separar a personagem da actriz.




Kim Bok-nam é antes de atacante uma vítima. Se calhar é apenas uma visão etnocêntrica. Se visse “Bedevilled” noutra região do planeta podia considerar o tratamento desta mulher perfeitamente normal e depois ficar indignada com os actos vis durante os últimos dois terços de filme. Vítima podia até ser uma palavra que não me passasse pela cabeça. Mas, independentemente, do local onde foi realizado e qual o público-alvo “Bedevilled” é um ensaio de violência sobre os que são tidos como mais fracos e onde a percepção de impunidade é utilizada para a prática flagrante de delitos sobre o corpo, a mente, a alma ou o espírito (se acreditarem nessas coisas). Mas, mais importante que isto são as condições que se reúnem para a geração de violência e permitem a sua propagação tais como a apatia de Hae-won. Se nada fizermos, não estaremos também a contribuir para magoar ainda mais Kim Bok-nam?


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