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girl on film

by ana sofia santos

15
Dez25

Opinião | "One Battle After Another": Paul Thomas Anderson e o triunfo do caos cinematográfico

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One Battle After Another afirma-se como um exercício de cinema exuberante, excessivo e assumidamente provocador, um daqueles filmes que não pedem permissão ao espectador para existir e que encontram precisamente aí a sua força. Realizado por Paul Thomas Anderson, que também assina o argumento, o filme conta com produção de Anderson, Adam Somner e Sara Murphy, consolidando uma equipa criativa que privilegia o risco, a liberdade formal e uma visão de autor muito acentuada.

Segundo a sinopse oficial, One Battle After Another [título nacional: "Batalha Atrás de Batalha"] acompanha um grupo improvável de personagens apanhadas num conflito tão íntimo quanto caótico, onde batalhas pessoais, políticas e emocionais se cruzam num território instável, marcado por paranoia, obsessão e humor negro. O filme constrói-se como uma sucessão de confrontos, internos e externos, em que nada é completamente linear nem totalmente fiável.

Um dos grandes trunfos da obra reside na banda sonora, que funciona como motor narrativo e emocional, sublinhando a tensão e o absurdo sem nunca cair no óbvio. A música não se limita a acompanhar as imagens: comenta-as, amplifica-as e, em vários momentos, empurra o filme para um território quase hipnótico. A este nível, junta-se um trabalho de figurinos particularmente inspirado, que define personagens, estados mentais e contextos com uma precisão visual que reforça o tom excêntrico e deliberadamente desajustado da narrativa.

 

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01
Set25

Opinião | Um Casal (Im)Perfeito. Amor gourmet: bonito, caro, sem sabor

- Atenção: o texto que se segue pode conter spoilers! -

 

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Imagem: Olivia Colman & Benedict Cumberbatch by Jennifer McCord / The Times

 

The Roses (título nacional: Um Casal (Im)Perfeito) apresenta Ivy (Olivia Colman), uma chef em ascensão, e Theo (Benedict Cumberbatch), arquitecto em declínio e pai a tempo inteiro, cujo “casamento perfeito” começa a desmoronar. Ambição, ressentimento e jogos de poder transformam a casa de sonho no palco de uma guerra doméstica.

The Roses é uma obra que deslumbra à superfície, mas hesita em mergulhar nas águas mais profundas da emoção. A reinterpretação do romance A Guerra das Rosas, de Warren Adler — pelas mãos de Jay Roach e com argumento assinado por Tony McNamara, mestre da sátira e da tensão emocional, cuja escrita equilibra acidez e humanidade com precisão cirúrgica — promete uma comédia negra sobre o divórcio, mas entrega sobretudo um exercício de estilo: refinado, sim, mas emocionalmente contido.

 

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27
Ago25

Opinião | Wolfs: estilo, química e elegância - mas pouco mais

- Atenção: o texto que se segue pode conter spoilers! -

 

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Dois “fixers” profissionais — interpretados por George Clooney e Brad Pitt — são contratados para resolver o mesmo problema: fazer desaparecer discretamente um corpo num hotel de luxo em Nova Iorque. Forçados a colaborar, veem-se envolvidos numa noite repleta de complicações, perseguições e encontros inesperados com figuras do submundo criminal. Ao longo de uma narrativa que tenta equilibrar o suspense com o humor negro, a dupla percorre a cidade numa espécie de jogo do gato e do rato, onde os papéis de caçadores e presas se vão trocando.

 

Realização e produção
O filme é realizado e escrito por Jon Watts, conhecido pela trilogia Spider-Man protagonizada por Tom Holland. Clooney e Pitt não só protagonizam como também produzem o filme através das suas empresas Smokehouse Pictures e Plan B Entertainment, em parceria com Apple Studios e a Columbia Pictures.

 

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06
Ago25

Opinião | Jurassic World: Rebirth. Nostalgia com esteroides e ADN alterado

- Atenção: o texto que se segue pode conter spoilers! -

 

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Jurassic World: Rebirth, o mais recente capítulo da eterna saga dos dinossauros, chega com promessas de regresso às origens, nostalgia sonora e um elenco de luxo. Mas será que isso basta para justificar mais uma viagem ao Parque? A resposta, infelizmente, é menos entusiasmante do que se esperava.

Cinco anos após os acontecimentos de Dominion, a humanidade vive numa trégua instável com os dinossauros, agora confinados a zonas selvagens protegidas. A farmacêutica ParkerGenix vê nos dinossauros uma oportunidade de negócio e envia uma equipa liderada por Zora Bennett (Scarlett Johansson) a uma ilha remota no Pacífico para recolher ADN. Neste espaço remoto, não só descobrem monstros marinhos gigantes como se deparam com perigosos dinossauros mutantes criados em segredo — incluindo o novo superpredador Distortus Rex.

Gareth Edwards regressa à realização após The Creator (2023), mantendo a sua assinatura visual: mistura de CGI com efeitos práticos, cenários imponentes e tensão bem construída. Conhecido por Monsters, Godzilla (2014) e Rogue One, Edwards é visualmente competente, mas aqui vê-se refém de um argumento reciclado e previsível. O guião, assinado por David Koepp — veterano da saga original (Jurassic Park, 1993) — parece preso a fórmulas gastas, sem ousadia ou inovação narrativa.

 

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Apesar de reunir nomes de peso, o filme nem sempre consegue tirar partido do seu elenco:

  • Scarlett Johansson (Zora Bennett) interpreta a protagonista com a segurança habitual, mas a personagem sofre com falta de profundidade emocional.
  • Mahershala Ali (Duncan Kincaid), duas vezes vencedor do Óscar, surge num papel secundário como um soldado com passado traumático. A sua presença eleva algumas cenas, mas é pouco explorado.
  • Jonathan Bailey (Dr. Henry Loomis), o paleontólogo da equipa, destaca-se pela sensibilidade e inteligência que confere à personagem, evitando a banalidade.
  • Rupert Friend (Martin Krebs), representante corporativo da ParkerGenix, é um vilão previsível, mas eficaz, com algumas nuances morais.
  • Manuel Garcia-Rulfo, conhecido por The Lincoln Lawyer [a série], é talvez a surpresa mais agradável do elenco. Tem carisma e presença, mas é subaproveitado — um desperdício evidente.
  • Luna Blaise, Audrina Miranda e David Iacono interpretam Teresa, Isabella e Xavier — dois adolescentes e uma criança que formam o núcleo mais emocional e surpreendentemente eficaz da narrativa. Teresa (Blaise) assume um papel de liderança quando o pai, Reuben Delgado (Manuel Garcia-Rulfo), fica ferido, revelando uma força interior que contrasta com o caos à sua volta. Isabella (Miranda), a irmã mais nova, equilibra inocência com coragem, protagonizando momentos de tensão genuína, como o icónico confronto com o T-Rex durante a cena da jangada. Xavier (Iacono), o namorado de Teresa, começa como um elemento cómico e aparentemente inútil, mas acaba por se revelar essencial em momentos críticos — com várias falas improvisadas que lhe conferem autenticidade e carisma. A dinâmica entre estes três jovens e Garcia-Rulfo é bem construída, com química natural e conflitos realistas, oferecendo ao filme uma camada de humanidade que contrasta com os excessos genéticos da trama.

 

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Dinossauros mutantes? Não, obrigada. É precisamente aqui que o filme falha mais redondamente: a insistência em apresentar dinossauros geneticamente alterados, como o Distortus Rex e os Mutadon, começa a roçar o absurdo. A verdade é que - nesta saga - o público só precisa de dois vilões para sair satisfeito da sala de cinema: T-Rex e Velociraptores. São estas criaturas clássicas que continuam a dominar as cenas com mais tensão, emoção e adrenalina. Tudo o resto é… ruído!

Há que dar mérito ao foco nos dinossauros marítimos — sobretudo o Mosasaurus, que protagoniza algumas sequências intensas e visualmente deslumbrantes. Estas cenas são, sem dúvida, as mais bem conseguidas em termos de espetáculo e escala.

 

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Sempre que ouvimos os acordes do tema clássico de Jurassic Park, é impossível não sentir um arrepio. A banda sonora de Rebirth, composta por Alexandre Desplat, presta homenagem a John Williams com respeito e sensibilidade. É, talvez, o elemento mais emocional do filme — uma âncora nostálgica que continua a funcionar.

Jurassic World: Rebirth entretém — mas pouco mais. É uma repetição de fórmulas com algumas boas ideias visuais e um elenco competente, mas que não consegue escapar ao peso de um guião previsível. A aposta em dinossauros mutantes revela-se desnecessária e, por vezes, ridícula. Se os produtores soubessem que bastava o T-Rex e um bom raptor para nos deixar felizes, talvez tivéssemos aqui um filme melhor.

Apesar de momentos pontuais de tensão e espetáculo, o filme tropeça nos mesmos erros que marcaram os anteriores: exagero visual, vilões artificiais e personagens pouco desenvolvidas. Com menos mutações e mais respeito pelos predadores pré-históricos que nos fizeram amar esta saga, Rebirth poderia ter sido muito mais.

 

 

Imagens: Divulgação / IMDb

 

06
Ago25

Opinião | The Fantastic Four: First Steps. Um reboot estilizado, mas sem alma

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The Fantastic Four: First Steps, lançado a 25 de julho de 2025, apresenta uma nova abordagem ao icónico grupo da Marvel, transportando-o para uma Terra alternativa e ambientada nos anos 1960. Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm ganham poderes após uma missão espacial e enfrentam Galactus, cujo arauto é uma nova encarnação do Silver Surfer: Shalla‑Bal, interpretada por uma mulher. A narrativa acompanha a equipa na tentativa de proteger o planeta e o bebé prestes a nascer de Sue, que poderá tornar-se um ponto focal cósmico para Galactus.

Pedro Pascal interpreta Reed Richards / Mr. Fantastic, um cientista brilhante e líder natural. Embora traga uma presença firme ao papel, o argumento pouco explora a sua dimensão emocional ou o potencial carismático do ator. Vanessa Kirby, como Sue Storm / Mulher Invisível, oferece uma interpretação serena e subtil. O facto de representar a primeira super-heroína grávida num filme da Marvel é relevante, mas essa faceta é tratada de forma superficial. Curiosamente, a atriz surgiu grávida na estreia do filme, o que levanta a dúvida sobre se essa condição pessoal influenciou a inclusão da gravidez da personagem no argumento — uma escolha que, embora promissora, não é devidamente explorada. Joseph Quinn assume o papel de Johnny Storm / Tocha Humana, com carisma e humor eficaz em momentos pontuais, embora sem uma verdadeira evolução da personagem. Ebon Moss‑Bachrach, como Ben Grimm / Coisa, apresenta uma interpretação melancólica, que infelizmente resvala para a caricatura devido à limitação do texto — uma caricatura que desperdiça a veia bem-humorada e versátil do ator.

Julia Garner, interpreta Shalla‑Bal / Silver Surfer numa ousada inversão de género. Apesar da sua presença visual marcante, a personagem surge como mero adereço digital, sem carga dramática significativa. Ralph Ineson encarna Galactus, o vilão cósmico, mas a sua presença é fugaz e pouco ameaçadora. A armadura em motion-capture não consegue conferir à personagem a gravidade e imponência necessária, tornando-a apenas numa espécie de ameaça decorativa.

 

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Cool+Early+Concept+Art+Revealed+For+Galactus+in+TH

 

Sob a realização de Matt Shakman, veterano de WandaVision, o filme procura homenagear a estética retrofuturista dos anos 60, com influências visuais de Kubrick, cenários práticos, miniaturas e lentes vintage. O resultado visual é sólido e estilizado, mas a narrativa não acompanha essa ambição estética. Falta-lhe leveza e humor, densidade e uma direção emocional coesa, o que surpreende vindo de um realizador com experiência tanto em drama como em comédia.

 

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Apesar da reimaginação temporal ser competente em termos de cenografia e guarda-roupa, não acrescenta substância à história. O enredo avança de forma previsível e superficial. A escolha de transformar Silver Surfer numa mulher é ousada, mas revela-se vazia. Julia Garner como Shalla‑Bal representa um ponto de inovação, mas a personagem carece de arco narrativo e impacto emocional — a ideia permanece meramente estética. Galactus, enquanto vilão, é demasiado fraco. A sua presença não gera tensão nem contribui para uma narrativa mais profunda.

Existem momentos de química e humor, sobretudo entre Johnny e Ben, e o grupo demonstra familiaridade e camaradagem. Contudo, isso não compensa a ausência de estrutura dramática ou de um propósito narrativo sólido. O guião está carregado de exposição e carece de conflito genuíno. A história arrasta-se, sem originalidade ou frescura.

 

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The Fantastic Four: First Steps prometia ser um reinício ousado no universo Marvel, mas acaba por repetir o padrão das anteriores adaptações falhadas da equipa. Apesar de contar com um elenco competente e uma estética retro apelativa, o filme tropeça numa narrativa fraca e num desenvolvimento superficial das personagens. A inclusão de Shalla‑Bal como aposta na diversidade de género é subaproveitada e não acrescenta profundidade ao enredo. No fim, o que sobra é uma visão estilizada mas sem coragem, longe da riqueza e impacto que os fãs conhecem das bandas desenhadas criadas por Stan Lee e Jack Kirby — as únicas versões verdadeiramente memoráveis do Quarteto Fantástico.

 

Imagens: Divulgação

03
Jul25

Opinião | Materialists: amor à prova de algoritmos

 

- Atenção: o texto que se segue contem spoilers! -

 

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Materialists — que em Portugal recebeu o título O Match Perfeito — é realizado por Celine Song (Past Lives) e conta a história de Lucy (Dakota Johnson), uma “matchmaker” de sucesso em Manhattan, especializada em juntar pessoas em relações teoricamente perfeitas. No dia do casamento de uma cliente, Lucy reencontra John (Chris Evans), o seu ex-namorado, agora a trabalhar como empregado de catering. Ao mesmo tempo, conhece Harry (Pedro Pascal), irmão do noivo, um investidor milionário, encantador e com todas as qualidades que Lucy recomenda aos seus clientes.

Num misto de ironia e vulnerabilidade, Lucy vê-se dividida entre dois mundos opostos: o amor antigo, imperfeito mas autêntico, e a promessa de uma vida nova, confortável e segura. Entre paixão e estabilidade, autenticidade e estatuto, o dilema está lançado — e Lucy é forçada a questionar tudo aquilo em que sempre acreditou sobre o amor.

 

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O regresso necessário da [boa] comédia romântica

Num panorama cinematográfico dominado por super-heróis, distopias e narrativas sombrias, Materialists surge como um bálsamo inesperado — e profundamente necessário. A comédia romântica, tantas vezes subestimada, regressa aqui com sofisticação, inteligência emocional e um olhar contemporâneo sobre os eternos dilemas do coração.

Celine Song demonstra que o género não precisa de fórmulas gastas, mas sim de personagens credíveis, conflitos reais e uma sensibilidade apurada para os paradoxos do amor moderno. Este não é apenas um filme sobre um triângulo amoroso — é uma dissecação subtil daquilo que hoje chamamos “amor” e da forma como, tantas vezes, o confundimos com conforto, capital e compatibilidade estatística.

Quando bem feita, a comédia romântica revela verdades difíceis com leveza quase invisível. Materialists faz isso com graça, estilo e uma dose equilibrada de honestidade.

 

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Entre o velho e o novo, entre a paixão e a segurança

O grande mérito do filme está na sua recusa em moralizar. John representa a paixão desorganizada, o caos emocional, a memória partilhada — mas também a instabilidade financeira, a falta de rumo e a insegurança. Harry, por outro lado, é mais velho, estável, gentil, culto… mas talvez muito previsível.

Lucy é o espelho da modernidade emocional: uma mulher que aprendeu a calcular, medir, prever. Mas o amor não é um algoritmo, nem uma folha de Excel. O filme convida-nos a reflectir: será que tememos o amor verdadeiro precisamente porque ele é, por natureza, instável?

 

O vazio dos filtros e as relações criadas por algoritmos

Materialists faz uma crítica subtil — mas certeira — à cultura das apps de encontros. Lucy, na sua profissão, representa o culminar dessa lógica: o amor como produto, com critérios de selecção tão rígidos quanto os de uma entrevista de emprego. Altura, património, peso, formação académica — tudo é filtrado, pouco é sentido.

E, no entanto, é fora dessa bolha que a personagem principal reencontra emoção: na imperfeição do ex-namorado, na espontaneidade dos gestos que não cabem num catálogo algorítmico. O filme não condena a tecnologia em si, mas questiona o que perdemos quando deixamos que o amor se transforme apenas numa lista de requisitos.

 

Banda sonora: emoção e nostalgia

A banda sonora, da autoria de Daniel Pemberton, é outro ponto alto. Oscila entre o minimalismo emocional e um romantismo nostálgico, com destaque para temas originais e a presença marcante de faixas indie, como “My Baby (Got Nothing At All)” da banda Japanese Breakfast — um tema que encapsula o dilema de Lucy entre “ter tudo” e “sentir alguma coisa”.

Cada cena tem uma assinatura sonora própria que não distrai, mas acentua: os momentos com Harry são acompanhados por composições estruturadas e elegantes; com John, a música é mais crua, desordenada, emocionalmente exposta.

 

Fotografia: contraste emocional

Filmado em 35mm por Shabier Kirchner, o visual de Materialists é deliberadamente contrastante. As cenas com Harry são compostas, estáveis, com cores quentes e luz suave, quase cinematográficas demais — reflectindo o seu papel de “homem ideal”. Com John, a câmara é mais instável, os planos mais apertados, e os tons frios dominam — tudo parece mais real, mais frágil, mais humano.

Nova Iorque, por sua vez, nunca se impõe, mas está sempre presente: não como postal turístico, mas como espaço emocional, onde o passado e o futuro colidem.

 

Guarda-roupa: elegância com narrativa

O guarda-roupa, da responsabilidade de Katina Danabassis, funciona como uma extensão silenciosa mas poderosa das personagens — e, em particular, da protagonista. Lucy, interpretada com subtileza por Dakota Johnson, veste-se com uma precisão quase clínica: vestidos minimalistas, cortes sofisticados, paletas neutras. Cada peça transmite controlo, sofisticação e distanciamento emocional, como se a sua imagem fosse uma armadura cuidadosamente construída para o mundo que ela própria ajuda a coreografar. No entanto, à medida que a sua estrutura emocional começa a vacilar, o figurino acompanha essa transformação com uma subtileza notável: começa a usar tecidos mais orgânicos, silhuetas menos rígidas, cores mais vulneráveis. É uma mudança quase imperceptível, mas profundamente reveladora.

Também os homens da narrativa são definidos visualmente com precisão. John surge sempre desalinhado, mas com identidade — roupas gastas, camadas descoordenadas, mas autênticas. Já Harry é o epíteto do homem “de catálogo”: impecavelmente vestido, talvez até em demasia, como se cada peça tivesse sido escolhida para agradar a um algoritmo. Através do guarda-roupa, Danabassis não veste apenas as personagens — revela, detalhe a detalhe, quem elas são e quem tentam ser.

 

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Materialists é uma comédia romântica para adultos — no melhor sentido da palavra. Inteligente e sofisticada, mas com momentos de verdadeiro encanto, é uma reflexão moderna sobre o amor num tempo em que tudo é quantificável. Celine Song lembra-nos que, por trás dos filtros, ainda há algo profundamente humano à espera de ser redescoberto.

 

 

Imagens: Divulgação A24 / IMDb

 

Contacto

ana sofia santos: agirlonfilm@sapo.pt

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