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girl on film

05
Ago18

Opinião ▪ Mission: Impossible - Fallout | Christopher McQuarrie. 2018

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Mission: Impossible – Fallout, escrito e realizado por Christopher McQuarrie é o sexto filme da saga Mission: Impossible.

Ethan Hunt (Tom Cruise) e a equipa do IMF juntam esforços com o agente especial da CIA, August Walker (Henry Cavill), para evitar um desastre de proporções épicas. O negociante de armas John Lark e um grupo de terroristas conhecidos como os Apóstolos planeiam usar doses letais de plutónio para levarem a cabo um ataque nuclear. Depois de uma negociação que corre mal, o elemento químico desaparece e cabe a Ethan e à sua equipa evitar que caiam nas mãos erradas.

Se há actor que, sozinho, leva as pessoas às salas de cinema, é Tom Cruise. Independentemente dos dramas que envolvem a cientologia, Cruise é o actor de acção perfeito. O facto do público conhecer a forma destemida como trabalha é só por si, uma campanha eficaz de marketing. Cruise é o seu próprio duplo. O actor já escalou o Burj Khalifa em Dubai em Ghost Protocol e já andou pendurado num avião em Rogue Nation. Este elemento atrai e muito espectadores.

 

 

02
Mar18

Opinião ▪ Lady Bird | Greta Gerwig. 2017




Em Sacramento (Califórnia), em 2000, uma peculiar jovem adolescente de 17 anos faz a sua entrada na vida adulta. 

É este o mote do filme Lady Bird de Greta Gerwig. Os talentos de Greta como atriz são sobejamente conhecidos mas a sua estreia na realização entra diretamente na mesma lista de Woody Allen e Richard Linklater ao criar um filme sobre a vida, sobre os momentos afortunados desta mas também sobre os infelizes, sobre os prazeres mas também sobre os infortúnios. Lady Bird é inocentemente sincero e mostra personagens que são retratos de pessoas reais e com as quais nos identificamos. 

Filmes sobre a entrada na idade adulta não são novidade no cinema, no entanto a forma como Gerwig realizou o filme é fresca e cheia de surpresas, tal como a vida. Quase que dá para apostar que Greta Gerwig criou estas personagens, elaborou um ponto de partida e começou a escrever, deixando as ideias fluir de forma natural à medida que ia inventando a história.




Ao longo do filme, sempre que a personagem principal, interpretada por Saoirse Ronan tenta conversar com elementos do sexo masculino protagoniza cenas verdadeiramente estranhas mas realistas, tal como cada interação que tem com os pais. Todo o argumento é mergulhado em emoções humanas. 

O burburinho em torno de do filmes estreia de Greta aconteceu logo após o estrondo que teve com a avaliação quase imaculada no Rotten Tomatoes mas depressa os ânimos acalmaram e aquilo que todos esperavam não aconteceu. Nem toda a critica recebeu o filme de braços abertos. É que o filme não é para todos. Porquê? Sobretudo pela sua temática central, que para muitos pode ser catalogada como "filme de e para adolescentes". Mas para a autora destas palavras, esta indexação é demasiado singela para o filme em causa. Garanto que quando o filme terminou, queria mais. Ficava com gosto a ver mais capítulos da curiosa e divertida vida de Lady Bird.




Todo o elenco é soberbo, mas Saoirse Ronan é soberba como Christine "Lady Bird" McPherson. É a típica personagem que adoramos odiar e odiamos adorar. Simpática mas detestável, mal educada mas divertida, irreal mas verdadeiramente humana. Laurie Metcalf e Tracy Letts são os pais de Lady Bird e ambos são brilhantes. A família de Bird não é perfeita. Os problemas monetários têm um grande impacto no dia-a-dia familiar. O pai está desempregado, a mãe trabalha a dobrar para conseguir suportar as despesas mensais. Entre a jovem e os pais acontecem momentos maravilhosos e intensos. O pai apoia a rapariga no sonho de entrar numa universidade em Nova Iorque, já a mãe prefere ter a extrovertida jovem perto de casa. Entre os três existem momentos de grande cumplicidade mas também de choque geracional e de conflito de valores. 




O jovem talentoso Timothee Chalamet, a estrela revelação de Call Me by Your Name, é um dos namorados de Lady Bird e a sua personagem é um dos pontos mais fracos do filme. Talvez porque não consegue brilhar na interação com uma personagem principal tão forte, ou porque Greta tomou a opção de lhe dar uma forma de estar e de ser tão extremista e política que não permite ao espectador criar grande empatia com a figura que interpreta. Beanie Feldstein que encarna a melhor amiga de Lady merece uma saudação pela positiva.




Todos sabemos o que é estarmos inseguro sobre quem somos e quem queremos ser. Lady Bird explora isso, com humor e habilidade dramática. Vai deixar-nos tristes, vai fazer-nos sorrir mas mais importante do que isso, vai fazer-nos pensar nas nossas próprias vidas. O filme parece capturar perfeitamente um tempo e o lugar na vida de uma determinada pessoa. Ronan é incrível e Gerwig e prova definitivamente que é uma talentosa cineasta. A cinematografia, a edição, a arte e o guarda-roupa contribuem de forma perfeita para o argumento e para aquela que é uma espécie de homenagem a Sacramento. O filme é engraçado, doce, especial, repleto de detalhes e cuja grandeza é difícil explicar em palavras. Obrigatório ver. E a partir de agora, parece certo que se era um prazer ver Greta Gerwig à frente das câmaras, passou a ser muito desejável ver mais do seu trabalho nos bastidores da realização.




“Listen, if your mother had had the abortion, 
we wouldn’t have to sit through this stupid assembly!”



21
Fev18

Opinião ▪ I, Tonya | Craig Gillespie. 2017



A maioria das biografias tendem a ser exercícios laudatórios. Mostram pessoas que superaram adversidades, que triunfam perante perseguições, que venceram guerras, disputas políticas ou que superaram doenças ou dependências. Ora bem, I, Tonya vai muito além de tudo isto. Esqueçam tudo o que até hoje sabiam ou julgavam saber sobre biografias. Se, habitualmente, uma narrativa biográfica celebra a história ou vida de alguém, no filme de Craig Gillespie o intuito é dado logo no início do filme: “You either love Tonya or you’re not a big fan. Kind of like how people either love America or they’re not a big fan. And Tonya was very American.


Com isto, não pensem que se quer dizer que o filme celebra a América, não, não é isso. O filme revela a história de Tonya Harding como algo profundamente americano. É uma mescla feita de guerra de classes, pobreza, misoginia e abuso, de uma cultura voraz obcecada por celebridades, de violência e tudo isto é envolto na máxima de que com muito trabalho é possível alcançar o que se deseja. 

Mais do que um exercício biográfico, I, Tonya é uma caricatura real de uma mulher grosseira, pouco inteligente, que sofreu e infligiu abusos e que através de talento nato, alcançou o patamar de atleta olímpica mas que sem perceber bem porquê ou como, perdeu tudo. 

A história de Tonya Harding é tumultuosa e dramática. Para aqueles que não sabem, Harding foi uma patinadora de excelência. Foi a primeira americana a fazer um triple axel numa competição da especialidade. Com muito esforço e dedicação pessoal venceu provas e representou os EUA nos Jogos Olímpicos. Depois de um desenvolvimento surreal, viu-se envolvida num escândalo que o seu próprio marido orquestrou: um ataque a Nancy Kerrigan (a sua maior adversária). Harding foi considerada culpada no envolvimento desta agressão e por ordem do Tribunal, foi proibida de voltar a exercer patinagem. O filme de Craig Gillespie conta esta história com grande veracidade sem nunca ser brando na abordagem. 

Margot Robbie fez um trabalho incrível. Encarnar uma figura polémica e peculiar foi certamente um trabalho muito complexo mas é bastante óbvio que a atriz fez muita investigação. Harding é uma personagem complexa, porque ao mesmo tempo que é dura, é manipulada e ao mesmo tempo que é forte, é fraca. Durante toda a infância e adolescência foi vítima de abuso por parte da mãe e depois por parte do marido. Para a atleta, as agressões eram representações de amor. No entanto, e sobretudo quando comparada com outras personagens, o filme consegue dar a Tonya alguma humanidade e talvez a partir de agora deixe de ser uma das mulheres mais odiadas dos EUA.






Cabe a Allison Janney interpretar o papel da odiosa mãe da atleta, LaVona Goldene e a Sebastian Stan coube o papel de dar uma “segunda vida” a Jeff Gillooly, o ex-marido. É caso para dizer que é fácil adorar o elenco e ainda mais fácil odiar as personagens, o que é sinónimo de prova superada. Stan ficou fora da corrida, mas as interpretações colossais, valeram as nomeações de Margot e Allison aos Oscars.

Nas cenas em que Harding faz os seus milagres na pista de gelo, percebemos claramente que a cara de Robbie foi colocada num corpo que não é o seu, mas isso não prejudica a cinematografia do filme. É de louvar toda a equipa envolvida neste projeto. O filme faz um brilhante trabalho ao convencer o espectador que os atores são as personagens reais - até na recreação das entrevistas documentais que são “encaixadas” ao longo de toda a narrativa.

É bastante óbvio que existiu uma investigação profunda e que tentaram ser os mais precisos possíveis. Foram usadas imagens reais e o guarda-roupa combinou na perfeição com as roupas que Harding usou na vida real. O trabalho de maquiagem e caracterização é igualmente soberbo. Podemos achar que alguns detalhes foram exagerados ou até divagar sobre o facto de que realmente Tonya conspirou com o seu ex-marido no ataque a Kerrigan mas independentemente dessa apreciação, é inegável que o realizador e toda a equipa do filme trabalhou tanto quanto possível para obter precisão. 

I, Tonya é surreal. Surreal no bom sentido. É impressionante imaginar que tudo aquilo aconteceu mesmo e que as personagens que Margot Robbie, Sebastian Stan e Allison Janney interpretam eram /são mesmo assim. Obviamente que há exageros mas se perderem tempo e “investigarem” na internet fotografias, notícias e vídeos sobre a história que o filme conta, percebem claramente que, neste caso, a ficção imitou e muito bem a vida real. 



“I thought being famous was going to be fun. I was loved, for a minute. Then I was hated, and I was just a punch line. It was like being abused all over, again. Only this time, it was by you. All you. You’re all my attackers, too.” 

-- Trailer --



14
Fev18

Opinião ▪ Black Panther | Ryan Coogler. 2018



Heróis, super-heróis, deuses, semideuses, mutantes e afins. Ultimamente o mundo do Cinema está cheio de personagens oriundas dos universos criados pela DC e pela Marvel. Alguns projectos são bem sucedidos, outros são verdadeiros tiros no pé. Neste tipo de filmes, os fãs, os simpatizantes e aqueles que abominam todo o tipo de adaptação da BD à Sétima Arte não podem nem devem esperar argumentos intensos, devem esperar filmes de acção, que distraiam e que por cerca de duas horas, divirtam.

A DC não anda nos seus melhores dias e com a sua última aposta, Justice League, prova que grandes elencos não fazem bons filmes. O filme é sofrível do principio ao fim, falta de empatia entre personagens, argumento fraquíssimo, história básica e efeitos especiais muito pouco competente (sim! a questão do bigode de Henry Cavill). A Marvel tem conseguido superar algumas provas e isso é alcançado porque têm tido a habilidade de fazer bons castings, construir bons elencos e tem tido no humor, a sua arma chave.

Mas, este texto, pretende ter Black Panther é o tema central, e que belo e bonito tema é. Com este novo capítulo, a Marvel superou muitas provas e arriscou ao fazer uma ode a África.





O realizador Ryan Coogler criou um projecto maravilha e deu-lhe um toque precioso e que tanta falta faz a Hollywood: o mito. O seu foco principal é a nação fantástica de Wakanda, uma espécie de Éden africano, onde paisagens são verdes e castanhas, onde o céu é azul e a água transparente e onde as tribos cruzam vivência com a ficção científica. Em Wakanda, as naves espaciais, que se assemelham a máscaras tribais, percorrem caminhos deslumbrantes traçados sobre majestosas quedas de águas.

Wakanda é o lar de Black Panther ou T'Challa (Chadwick Boseman), mais um herói da Marvel que sai da página de um livro para um filme. Criado em 1966 por Stan Lee e Jack Kirby, a "Pantera Negra" original estreou ao lado dos Fantastic Four numa aventura passada em Wakanda, esse local mágico situado no continente africano e alicerçada num metal misterioso, o vibranium.

Nas décadas que se seguiram, Black Panther sofreu uma variedade de alterações de trajes e de aventuras nos quadrinhos. Teve uma minissérie animada realizada por Reginald Hudlin e, mais recentemente, teve um refresh editorial da responsabilidade de Ta-Nehisi Coates. Para realizar o primeiro filme de Panther, a Marvel convocou Ryan Coogler, que tem no curriculum Creed e o incrível Fruitvale Station. Nesta nova aventura profissional, Coogler fez-se acompanhar por Rachel Morrison, a directora de fotografia com quem trabalhou em Fruitvale Station, uma opção sábia e que ajuda a explicar a intimidade e fluidez deste filme.

Escrito por Coogler e Joe Robert Cole, Black Panther conta a história de T'Challa no presente, mostra esboços do seu passado e olha para o seu futuro. A forma atrapalhada como T'Challa foi apresentada em Captain America: Civil War é aniquilada e é feita a devida apresentação neste novo capítulo. 

Ulysses Klaue (Andy Serkis) é o primeiro vilão  a ser apresentado. A personagem (um tanto ou quanto caricatural) é um traficante de armas que tem um braço artificial transformado numa espécie de arma que é movida a vibranium (que roubou em Wakanda). A Klaue junta-se outro vilão, Erik Killmonger (Michael B. Jordan), cujas motivações vão além da tentativa de destruir a nação de T'Challa. Os actos destes dois criminosos chamam a atenção do simpático agente da CIA, Everett K. Ross, interpretado por Martin Freeman, que se junta ao elenco.





A história do filme viaja entre Wakanda, EUA e Coreia do Sul e tudo é feito com elegância, como se James Bond ou se The Man from U.N.C.L.E. colidissem no mesmo universo que um jogo de consola. Momentos de perseguições e de caos são coreografados ao detalhe e premiados com guarda roupa e acessórios de alta-costura. Ryan Coogler pensou tudo ao detalhe e não poupou em sensibilidade. Por exemplo, se houvesse a tentação de colocar Serkis a roubar cenas ou a ter protagonismo, o realizador voltou a sua atenção para Killmonger e empurrou o filme noutra direcção, afastando a ousadia expectável de criar um vilão branco e racista.

Parte do prazer do filme e da sua mensagem está na forma subtil e inteligente como dispensa ou molda discursos baseados em etnias ou raças. Wakanda é uma monarquia militarista que, no entanto, é justa e democrática. A vida em Wakanda é ao mesmo tempo urbana e rural, futurista e tradicional, tecnológica e mística. As naves espaciais ampliam os edifícios em ascensão com toques de palha; um comboio de alta velocidade passa por um mercado que vende cestas tradicionais. Um dos cenários mais impressionantes do filme é uma sala de trono ao ar livre, revestida horizontalmente com partes de árvores suspensas que cria um padrão solto e que desencadeia a divisão entre os mundo interior e exterior.





Como muitas aventuras, histórias ou lendas, Black Panther gira em torno de um drama familiar de pai e filho - há um assassinato, um vácuo de poder e um herdeiro um tanto relutante em aceitar o poder no seu todo, uma intriga patrilinear que é preenchida aqui com elementos intensos que envolvem questões de ascendência, identidade, a Diáspora africana e a fronteira entre o novo mundo e o antigo. Um fio narrativo particularmente interessante é apresentado Sterling K. Brown, cuja presença em cena é diminuta mas que consegue transmitir capítulos inteiros de sofrimento e de história.

Jordan é uma presença carismática e há momentos em que até podemos questionar se não teria sido este actor uma melhor escolha para interpretar a personagem principal. O magnetismo e a empatia entre o público e a personagem principal, desempenhada por Boseman é mais lenta mas este é um processo deliberado e bem sucedido. Tal como muitos dos seus conterrâneos, o rei de Wakanda fala num inglês com uma espécie de pronuncia sul-africana, um sotaque que convida a recordar Nelson Mandela e que sugere o papel que T'Challa em breve assumirá como diplomata internacional. A calma, a humanidade, a ética e os valores democráticos que esta personagem tem, afastam-no a milhas de todos os membros do Panteão Marvel. Falamos de linhagem real e mística, de um herói que tem a seu cargo, uma nação, uma identidade, um passado e que envolve a luta pela sobrevivência. É o primeiro super-herói com descendência africana e isso não é esquecido durante um minuto que seja.

Para o desenvolvimento da narrativa e para o engrandecimento do filme é importante o facto de que T'Challa está rodeado por uma falange de mulheres. Mulheres que o suportam com apoio maternal, militar e científico. Há um batalhão de mulheres guerreiras denominado Dora Milaje, cuja chefia está sob tutela de Okoye (Danai Gurira), a dinâmica, engraçada e inteligente irmã Shuri (Letitia Wright), a "mãe razão" Ramonda interpretada pela lindíssima e sempre interessante Angela Bassett e Lupita Nyong'o, que é Nakia, uma mulher guerreira com sangue real. 





Impulsionada e abrilhantada pelas mulheres groovy e afro futuristas, Wakanda é em si, a força do filme, a personagem principal. A nação de Wakanda é um mundo místico onde pastores patrulham as fronteiras com armas tecnológicas e roupas deslumbrantes e poderosas por causa do vibranium. Nunca tendo sido conquistada, Wakanda escapou aos traumas históricos sofridos em grande parte do continente africano, permanecendo livre dos estragos do colonialismo e do pós-colonialismo.

É um filme Marvel e isso nunca é colocado de lado, seja porque vimos máscaras, combates ou referências subtis aos Avengers. Mas no filme de Ryan Coogler a raça e a identidade são os pontos centrais. As origens importam e muito em Black Panther, que aborda pertinentes preocupações humanas sobre o Passado, o Presente, o Futuro e questiona o uso indevido e os abusos de poder. Ao enfatizar a mística e identidade africana, a criação e a libertação, o filme torna-se num símbolo de um passado que foi negado e de um futuro que se sente muito presente. E, ao fazê-lo, com brilhantismo estético, abre um mundo novo no universo Marvel e a nós, espectadores, incita a um encantamento com estas novas personagens e com o universo magnifico que as rodeiam.




"The world is changing. Soon there will only be the conquered and the conquerors. You are a good man, with a good heart. And it's hard for a good man to be a king."

-- Trailer --


25
Jan18

Opinião ▪ The End of The F***ing World. T1



8 episódios, menos de 3 horas em que cada minuto vale a pena.

Baseada na novela gráfica de Charles Forsman, a série The End of The F***ing World, escrita Charlie Covell e realizada por Jonathan Entwistle e Lucy Tcherniak, conta a história de dois adolescentes problemáticos, James (Alex Lawther) e Alyssa (Jessica Barden), e a sua aventura pelo desconhecido. Relata como e por que fugiram de casa, a descoberta dos seus limites, a procura pelo auto-conhecimento e, sobretudo, a sua luta pela sobrevivência.

James e Alyssa formam um estranho duo que, por peculiares circunstâncias, acabam por se conhecer e atrair mutuamente. James acha que é um psicopata e que a rapariga será a sua primeira vítima mortal. Alyssa por sua vez é a (a)típica adolescente que não gosta de nada, de ninguém, sem modos ou educação. Ambos estão assustados e os dois escondem-se perante uma fachada que os encaminha para uma aventura para a qual não estavam preparados. Ao longo dos episódios, é apresentado ao espectador os dois pontos de vista diferentes, dados através de momentos de narração introspetiva dos protagonistas e é nestes momentos que conhecemos o verdadeiro íntimo dos jovens.

As personagens são únicas e a apresentação das mesmas é feita ao longo da série. Aprendemos a conhece-los e a percebe-los. O facto de os episódios serem de curta duração só a engradece. Não há monólogos ou cenas longas, não há momentos aborrecidos nem diálogos que não acrescentam nada à história. Tudo é importante e tudo é complementado com uma realização, edição e música perfeita. É uma espécie de série indie, ou uma espécie de curta ou até mesmo uma peça de teatro. A forma como acontecem os diálogos, o modo como James e Alyssa interagem dão a The End of The F***ing World uma aura única e impossível de encontrar nos projetos denominados mainstream.





A série da Netflix é envolta no estilo dramático que os adolescentes adotam quando acham que a rebelião é a resposta mais atrativa para a fuga à rotina e às normas. De forma pouco agressiva e chocante, o argumento toca em assuntos sensíveis, como a homossexualidade, abusos sexuais, suicídio e abandono. Curiosamente, é no momento em que contactam com o mundo adulto e desconhecido que James e Alyssa, vítimas das circunstâncias, se transformam em infratores.

Ao longo da jornada que a dupla enfrenta, a série canaliza as ansiedades da adolescência por causa de sexo, de estabilidade mental e da aceitação. Cada decisão que tomam piora a sua situação. James percebe que de homicida tem muito pouco e Alyssa aprende que amar é uma escolha e que a confiança e o respeito são possíveis de alcançar, mesmo que as experiencias anteriores não tenham corrido bem. Até então, o mundo que os adolescentes conheciam era o limite das suas próprias experiencias e tudo muda ou termina quando resolvem abandonar as suas limitadas vidas.






Os cenários são usados como reflexo dos sentimentos das personagens. Os espaços urbanos representam a repressão e uma espécie de encarceramento que suscita à fuga. Como contraste, a periferia é um espaço de reflexão, descoberta de emoções e promotor de resoluções. A banda sonora, pensada por Graham Coxon, apoia-se no pop e no rock dos anos 60 e 70 e é uma referência clara aos road movies.

The End of The F***ing World é corajoso e inspirador e alicerçado no medo e de forma contrastante, nas atitudes destemidas com que Alyssa e James dão os primeiros passos para a entrada na idade adulta.


"When you have silence, it's hard to keep stuff out. It's all there, and you can't get rid of it. I used to be able to get rid of things, banish them. But I knew after that day, it wouldn't be so easy any more... I was never Alyssa's protector. She was mine."



17
Jan18

Opinião ▪ Call Me by Your Name | Luca Guadagnino. 2017



Em Itália do final do anos 80, Elio de dezassete anos, inicia um relacionamento com Oliver, o assistente do pai que é um conceituado professor de Cultura Clássica. Entre os dois nasce uma relação especial, emoldurada num cenário paradisíaco.

Caros leitores, não se deixem enganar pela falsa publicidade ou pelas opiniões mais tendenciosas, Call Me by Your Name não merece nenhum tipo de rótulo simplista. É um filme sobre crescimento, vulnerabilidade, sexualidade, descoberta, mas sobretudo sobre amor.



Tudo no filme é apaixonante: argumento, realização, fotografia, banda sonora, cenários e sobretudo as interpretações. A dinâmica entre Armie Hammer (Oliver) e Timothée Chalamet (Elio) – as personagens principais - e o apoio que recebem de Michael Stuhlbarg (Perlman) e de Amira Casar (Annella) completam, de forma perfeita, a história principal. O filme de Luca Guadagnino dá às personagens uma importância tal que é impossível colocar de parte o facto de que de que este filme tem algumas das (se não as) melhores interpretações do ano (2017). Momentos de leveza narrativa são alternados por momentos de profunda emoção, intimidade e introspecção: a crença emocional de Chalamet, o controlo do tom de voz e as expressões faciais matizadas de Armie Hammer e até o monólogo final de Michael Stuhlbarg, são momentos de pura beleza cinematográfica. É muito refrescante e cativante ver as personagens a interagir entre si. Não li o livro de André Aciman, que está na origem do filme, mas aposto que as opções de Guadagnino e de James Ivory, na realização e escrita (respectivamente), não envergonham em nada o autor. 

A empatia que criamos com as personagens é um dos elementos mais agradáveis deste filme. As várias cenas memoráveis do filme, fazem com que o espectador se torne vulnerável, quer nos momentos em que esboçamos um sorriso quer naqueles que nos fazem lembrar algo ou até naqueles em que algo nos incomoda. 

Guadagnino realizou este filme que se fosse uma pintura digna de um Mestre da Escola de Barbizon - trabalhou de forma meticulosa, usou sabiamente a luz e as sombras e tomou opções propositadamente sedutoras. O palco principal - Itália (Crema, Pandino e Moscazzano) - também ajuda a desenvolver o enamoramento entre a película e o espectador. 

Com o Oliver de Armie, a empatia não é imediata. De forma propositada, nunca esquecemos que é um adulto, que é um convidado, que é experiente e que é sobretudo sincero com o jovem por quem se apaixona e que também se apaixona por ele. Armie é inteligente e racional mas é sobretudo através do colossal trabalho do jovem Chalamet, como Elio, que são transmitidas as mais sensíveis das emoções, da vulnerabilidade, e do amor. Até no momento mais piroso do filme, precisamente a cena em que acontece o momento “call me by your name and I’ll call you by mine” é deslumbrante porque, caros leitores, todos temos momentos pirosos mas marcantes nas nossas vidas. O romântico nem sempre é refinado como uma jóia Lalique, pode ser pindérico como a letra de uma música sertaneja.












A forma como o romance entre Oliver e Elio cresce é extremamente erótica. Nada é explicito. O filme gira em torno de nuances e subtilezas tanto na maneira como os dois homens falam um com o outro, mas também na maneira como se tocam. Os momentos em que os dois trocam um olhar, inventam desculpas para estarem juntos, os gestos e toques são dos momentos mais eróticos de todo o filme. Luca Guadagnino não pretendeu fazer cenas sexy’s mas sim intoxicar o espectador com desejo de saber o que vai acontecer a seguir. Um romance tem obviamente que ser equilibrado nos dois lados dos amantes. Chalamet e Hammer dão desempenhos extraordinários e intrincados, são duas pessoas não têm certezas sobre si próprias mas que, eventualmente, descobrem o seu eu mais real na presença do outro. 

Mas é o monólogo de Mr. Perlman’s, o pai de Elio, um dos momentos mais intensos do filme: "Remember, our hearts and our bodies are given to us only once. And before you know it, your heart is worn out, and, as for your body, there comes a point when no one looks at it, much less wants to come near it. Right now, there is sorrow, pain. Don’t kill it. Embrace it with the joy you’ve felt."
Se alguém tinha algum tipo de dúvida acerta de quão colossal Michael Stuhlbarg é (pessoas que certamente não viram Boardwalk Empire, por exemplo) passaram certamente a ter as suas dúvidas dissipadas. Com estas palavras, Perlman confirma saber o que se passa entre o filho e Oliver. Em momento nenhum o julga e tenta consolar o jovem com palavras de sabedoria, empatia e coragem. Cada palavra que o pai diz ao filho é intencional e cuidadosamente pensada pois o jovem viveu e perdeu o seu primeiro amor. 

O fim do filme é gigantesco. Num fim de tarde de inverno, Elio recebe um telefonema de Oliver a anunciar que vai casar. Chocado, o rapaz diz “Elio, Elio, Elio, Elio, Elio…” ao qual Oliver responde, “Oliver…I remember everything.” Não existem muitos filmes com créditos finais memoráveis ou belos mas Call Me by Your Name consegue o feito terminar com "chave de ouro". É artístico e tão cuidadosamente interpretado como editado. Além disso, escolheram a música perfeita Visions of Gideon de Sufjan Stevens

Call Me by Your Name é um daqueles filmes que permanece durante muito tempo na mente do espectador. É encantador no seu todo. Esperemos que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não ignore o trabalho do realizador mas sobretudo que não coloque de lado o extraordinário desempenho de Timothée Chalamet e de Michael Stuhlbarg. Se tal acontecer, é um acto criminoso.


What if my body—just my body, my heart—cried out for his? What to do then? What if at night I wouldn’t be able to live with myself unless I had him by me, inside me? What then? 




Contacto

Sofia Santos: agirlonfilm@sapo.pt // blog.girl.on.film@gmail.com

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