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girl on film

02
Mar18

Opinião ▪ Lady Bird | Greta Gerwig. 2017




Em Sacramento (Califórnia), em 2000, uma peculiar jovem adolescente de 17 anos faz a sua entrada na vida adulta. 

É este o mote do filme Lady Bird de Greta Gerwig. Os talentos de Greta como atriz são sobejamente conhecidos mas a sua estreia na realização entra diretamente na mesma lista de Woody Allen e Richard Linklater ao criar um filme sobre a vida, sobre os momentos afortunados desta mas também sobre os infelizes, sobre os prazeres mas também sobre os infortúnios. Lady Bird é inocentemente sincero e mostra personagens que são retratos de pessoas reais e com as quais nos identificamos. 

Filmes sobre a entrada na idade adulta não são novidade no cinema, no entanto a forma como Gerwig realizou o filme é fresca e cheia de surpresas, tal como a vida. Quase que dá para apostar que Greta Gerwig criou estas personagens, elaborou um ponto de partida e começou a escrever, deixando as ideias fluir de forma natural à medida que ia inventando a história.




Ao longo do filme, sempre que a personagem principal, interpretada por Saoirse Ronan tenta conversar com elementos do sexo masculino protagoniza cenas verdadeiramente estranhas mas realistas, tal como cada interação que tem com os pais. Todo o argumento é mergulhado em emoções humanas. 

O burburinho em torno de do filmes estreia de Greta aconteceu logo após o estrondo que teve com a avaliação quase imaculada no Rotten Tomatoes mas depressa os ânimos acalmaram e aquilo que todos esperavam não aconteceu. Nem toda a critica recebeu o filme de braços abertos. É que o filme não é para todos. Porquê? Sobretudo pela sua temática central, que para muitos pode ser catalogada como "filme de e para adolescentes". Mas para a autora destas palavras, esta indexação é demasiado singela para o filme em causa. Garanto que quando o filme terminou, queria mais. Ficava com gosto a ver mais capítulos da curiosa e divertida vida de Lady Bird.




Todo o elenco é soberbo, mas Saoirse Ronan é soberba como Christine "Lady Bird" McPherson. É a típica personagem que adoramos odiar e odiamos adorar. Simpática mas detestável, mal educada mas divertida, irreal mas verdadeiramente humana. Laurie Metcalf e Tracy Letts são os pais de Lady Bird e ambos são brilhantes. A família de Bird não é perfeita. Os problemas monetários têm um grande impacto no dia-a-dia familiar. O pai está desempregado, a mãe trabalha a dobrar para conseguir suportar as despesas mensais. Entre a jovem e os pais acontecem momentos maravilhosos e intensos. O pai apoia a rapariga no sonho de entrar numa universidade em Nova Iorque, já a mãe prefere ter a extrovertida jovem perto de casa. Entre os três existem momentos de grande cumplicidade mas também de choque geracional e de conflito de valores. 




O jovem talentoso Timothee Chalamet, a estrela revelação de Call Me by Your Name, é um dos namorados de Lady Bird e a sua personagem é um dos pontos mais fracos do filme. Talvez porque não consegue brilhar na interação com uma personagem principal tão forte, ou porque Greta tomou a opção de lhe dar uma forma de estar e de ser tão extremista e política que não permite ao espectador criar grande empatia com a figura que interpreta. Beanie Feldstein que encarna a melhor amiga de Lady merece uma saudação pela positiva.




Todos sabemos o que é estarmos inseguro sobre quem somos e quem queremos ser. Lady Bird explora isso, com humor e habilidade dramática. Vai deixar-nos tristes, vai fazer-nos sorrir mas mais importante do que isso, vai fazer-nos pensar nas nossas próprias vidas. O filme parece capturar perfeitamente um tempo e o lugar na vida de uma determinada pessoa. Ronan é incrível e Gerwig e prova definitivamente que é uma talentosa cineasta. A cinematografia, a edição, a arte e o guarda-roupa contribuem de forma perfeita para o argumento e para aquela que é uma espécie de homenagem a Sacramento. O filme é engraçado, doce, especial, repleto de detalhes e cuja grandeza é difícil explicar em palavras. Obrigatório ver. E a partir de agora, parece certo que se era um prazer ver Greta Gerwig à frente das câmaras, passou a ser muito desejável ver mais do seu trabalho nos bastidores da realização.




“Listen, if your mother had had the abortion, 
we wouldn’t have to sit through this stupid assembly!”



05
Abr17

Opinião ▪ 20th Century Women | Mike Mills. 2016



The beginning of my writing process is I just try to remember as much stuff as I can and write them down on single 5x7 cards. I don’t think about structure, I don’t think about Final Draft, which is the software you write scripts in, and I’m just compiling, compiling, compiling and I have a character stack and those were the Jamie stuff…. [but] as a guy talking about women, I was very worried and wanted to find where my limitations were and sort of make them part of the piece. And also writing is such an isolating practice, it’s such a horribly isolating practice, I was desperate just to go and meet other people and kind of work in a slightly more journalistic way, and do interviews and try to find little nuggets of details I could insert in my story. … I like that, it’s slightly documentary, slightly journalistic flavor to the writing practice and it gets you out of your little cell.”

– Mike Mills 


Mulheres do Século XX (título nacional) conta a história de cinco pessoas que vivem na mesma casa, em Santa Barbara no verão de 1979. Aborda a forma como lidam com conflitos pessoais e interpessoais num mundo que está em rápida mutação. 

Uma mãe solteira (e tardia) Dorothea (Annette Bening) é a dona da casa, Jamie (Lucas Jade Zumann) é o filho, a inquilina é a fotografa punk e sobrevivente de cancro Abbie (Greta Gerwig). Depois há um sensível  handyman chamado William (Billy Crudup) e por fim, existe uma habitante (mais ou menos) temporária, a vizinha e melhor amiga de Jamie,  Julie (Elle Fanning). Para Dorothea esta conjugação de pessoas é a mais indicada para a ajudarem na  missão difícil de educar o filho. O tema da educação é uma constante mas nunca é abordado de forma forçada ou pesada e cabe à personagem de Anette a gestão desta relação. 

Annette Benning dá ao filme uma performance magnifica e melancólica como a mãe solteira que tenta encontrar um equilíbrio entre a criação do seu filho adolescente e o dar-lhe a liberdade necessária ao crescimento e que tem como objectivo máximo garantir que Jamie se torne num ser humano decente. Esta mixórdia de gente peculiar é sublime.

O elenco é fabuloso mas Benning dá uma lição ao mundo sobre o que é ser actriz. Até nas pausas magistrais e silêncios é exímia e Gerwing mostra mais uma vez porque é que é uma das melhores actrizes da sua geração. 










Se é no elenco que a força do filme reside, também a realização e escrita não podem ser colocados de parte. Tal como em Beginners,  Mike Mills mostra muito de si e da sua vida neste filme. Na película de 2010, Mills deu-nos a conhecer o pai e neste passamos a conhecer a mãe. Se esperam ver um filme sobre família, sobre valores institucionais e pré-estabelecidos, esqueçam, não o é. É um filme sobre mudança, sobre a quebra de paradigmas, sobre uma geração (a de Dorothea) que cresceu durante a Depressão e que assiste à mudança drástica do Mundo. 

Filmado e editado de forma detalhada e bonita, 20th Century Women é vibrante, fresco e aborda de forma leve, assuntos relevantes da época e que ainda hoje são determinantes para compreendermos a história contemporânea dos Estados Unidos e de uma cultura que o resto do Mundo importou. 

Todo o filme é mergulhado em detalhes absolutamente divinas. As referencias à cultura dos últimos anos da década de 70 - desde o famoso discurso de Carter, Crisis of Confidence até ao punk undergroung ou a new wave, passando e muito por referências literárias como Our Bodies, Ourselves ou The Second Sex de Simone de Beauvoir. Detalhes determinantes para complementarem o argumento. 

20th Century Women é uma lição sobre como todos nós somos a soma das pessoas significativas que encontramos ao longo da vida.




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Ana Sofia Santos: blog.girl.on.film@gmail.com

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