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girl on film

by ana sofia santos

19
Fev18

Black Panther | Um guarda-roupa feito à medida para a nação de Wakanda



Existem muitas razões para justificar porque é que Black Panther é tão diferente dos outros filmes do universo Marvel e até, diferente de grande parte dos filmes de Hollywood, sendo que a maior das razões se prendem com o trabalho que incrível trabalho que Ruth E. Carter fez com o guarda-roupa do filme. 

"I feel like I've been designing superheroes my whole life," disse a designer Ruth E. Carter à Vogue sobre a sua carreira no Cinema. Carter foi a responsável pelo guarda-roupa de Malcolm X de Spike Lee e Amistad de Steven Spielberg.

O filme Marvel, Black Panther foi o último projeto da estilista, que para preparar e juntar fontes e inspiração, juntou cerca de 100 elementos da sua equipa e viajaram para a Africa do Sul, Nigéria e Coreia do Sul para estudar padrões, cores e silhuetas. A esta pesquisa e levantamento quase documental juntaram-se artífices de joias, fabricantes de moldes, ferreiros, pintores de tecidos e alfaiates, tudo para dar a Wakanda um estilo e estética única. 

Wakanda, a nação de Black Panther pode ser imaginária, mas o seu estilo está enraizado na história e na cultura real de África. A figurinista Ruth E. Carter precisava vestir as personagens - incluindo o próprio Black Panther, T'Challa (Chadwick Boseman) – tendo em mente que era necessário estabelecer um olhar coeso para uma pátria inteira, que é futurista mas ao mesmo tempo é mergulhada na tradição e história africana. Wakanda é rico em vibranium, um metal raro, incrivelmente forte e incrivelmente valioso. A abundância deste material tem um enorme efeito sobre a prosperidade do país, os avanços tecnológicos e a cultura, e por isso Carter decidiu usar o metal nas roupas por razões práticas, como símbolo de poder e também por opções decorativas. 




Não é difícil perceber porque é que os fatos de Black Panther são fabricados com este metal. É leve, elegante e à prova de balas. De notar, que o escudo do Captain America também é feito de vibranium. “Selecionei as coisas das tribos indígenas e atribuí-lhes um modelo futurista. (…) A cultura que o realizador Ryan Coogler criou é única, combina elementos de muitas tribos africanas - incluindo a cor vermelha, a forma do triângulo, anéis no pescoço e trabalhos em missangas". Carter transformou habilmente Balck Panther numa alegria visual fantástica para os olhos de quem vê o filme. O objetivo deste projeto é dar às pessoas algum "contexto real" em torno de África. 

As armaduras do clã guerreiro, só constituído por mulheres e denominado por Dora Milaje, são extraordinárias. Os relevos impressos nesse material bélico imitam a geometria sagrada e as imagens reproduzidas na pintura e escultura africana. Outros detalhes sugerem o estado civil das portadoras, e os talismãs minúsculos no tabard (parte da frente da armadura) das guerreiras - uma boneca de fertilidade, um pedaço de jade ou ametista - são símbolos das habilidades e da espiritualidade das portadoras. "Imaginei que em Wakanda deviam existir artesãos que eram encarregados de criar armaduras à medida para as Dora Milaje (…)”, esclarece Ruth. 

A escolha da cor viva da armadura das Dora Milaje é o resultado dos vermelhos arrojados que Carter conheceu África do Sul e as peles usadas, foram atadas e unidas por um fio pesado para formar um textura que se assemelha a uma segunda pele para as combativas mulheres. Este processo foi cuidadosamente elaborado usando uma técnica centenária. Os colares e pulseiras as guerreiras também têm vibranium.




Para Nakia, a personagem de Lupita Nyong'o, o vestido que usa quando vai àquela espécie de casino, foi pintado à mão com diferentes tons de verde para se relacionar com a cor da sua tribo. Para a rainha Ramonda, interpretada por Angela Bassett, compartilhou Carter: "Ela é a líder de uma nação avançada que possui mais tecnologia do que qualquer outro lugar no Mundo, e por isso as suas roupas tinham que ser igualmente grandiosas e com claras referências à época vitoriana. O seu manto de ombro foi feito com fibras especiais feitas na maior impressora 3D do mundo (na Bélgica). A sua coroa, também feita através de tecnologia de ponta, teve que ser totalmente cilíndrica, numa alusão à perfeição pura".






O xamã Zuri (Forest Whitaker) é um mentor de T'Challa e para dar-lhe essa sensação de reverência, Carter baseou-se nos trajes dos antigos chefes nigerianos, acrescentando plissados intrincados inspirados pelo estilista japonês Issey Miyake.

Ruth E. Carter merece uma nomeação aos Óscars do próximo ano. A estilista merecia ser a primeira mulher a levar para casa o melhor elogio do guarda-roupa para um filme de super-heróis. De notar que se Carter vencer, seria a primeira mulher afro-americana a ganhar um Óscar pela primeira adaptação cinematográfica da história de super-herói preto. 

Concept Art:







14
Fev18

Opinião ▪ Black Panther | Ryan Coogler. 2018



Heróis, super-heróis, deuses, semideuses, mutantes e afins. Ultimamente o mundo do Cinema está cheio de personagens oriundas dos universos criados pela DC e pela Marvel. Alguns projectos são bem sucedidos, outros são verdadeiros tiros no pé. Neste tipo de filmes, os fãs, os simpatizantes e aqueles que abominam todo o tipo de adaptação da BD à Sétima Arte não podem nem devem esperar argumentos intensos, devem esperar filmes de acção, que distraiam e que por cerca de duas horas, divirtam.

A DC não anda nos seus melhores dias e com a sua última aposta, Justice League, prova que grandes elencos não fazem bons filmes. O filme é sofrível do principio ao fim, falta de empatia entre personagens, argumento fraquíssimo, história básica e efeitos especiais muito pouco competente (sim! a questão do bigode de Henry Cavill). A Marvel tem conseguido superar algumas provas e isso é alcançado porque têm tido a habilidade de fazer bons castings, construir bons elencos e tem tido no humor, a sua arma chave.

Mas, este texto, pretende ter Black Panther é o tema central, e que belo e bonito tema é. Com este novo capítulo, a Marvel superou muitas provas e arriscou ao fazer uma ode a África.





O realizador Ryan Coogler criou um projecto maravilha e deu-lhe um toque precioso e que tanta falta faz a Hollywood: o mito. O seu foco principal é a nação fantástica de Wakanda, uma espécie de Éden africano, onde paisagens são verdes e castanhas, onde o céu é azul e a água transparente e onde as tribos cruzam vivência com a ficção científica. Em Wakanda, as naves espaciais, que se assemelham a máscaras tribais, percorrem caminhos deslumbrantes traçados sobre majestosas quedas de águas.

Wakanda é o lar de Black Panther ou T'Challa (Chadwick Boseman), mais um herói da Marvel que sai da página de um livro para um filme. Criado em 1966 por Stan Lee e Jack Kirby, a "Pantera Negra" original estreou ao lado dos Fantastic Four numa aventura passada em Wakanda, esse local mágico situado no continente africano e alicerçada num metal misterioso, o vibranium.

Nas décadas que se seguiram, Black Panther sofreu uma variedade de alterações de trajes e de aventuras nos quadrinhos. Teve uma minissérie animada realizada por Reginald Hudlin e, mais recentemente, teve um refresh editorial da responsabilidade de Ta-Nehisi Coates. Para realizar o primeiro filme de Panther, a Marvel convocou Ryan Coogler, que tem no curriculum Creed e o incrível Fruitvale Station. Nesta nova aventura profissional, Coogler fez-se acompanhar por Rachel Morrison, a directora de fotografia com quem trabalhou em Fruitvale Station, uma opção sábia e que ajuda a explicar a intimidade e fluidez deste filme.

Escrito por Coogler e Joe Robert Cole, Black Panther conta a história de T'Challa no presente, mostra esboços do seu passado e olha para o seu futuro. A forma atrapalhada como T'Challa foi apresentada em Captain America: Civil War é aniquilada e é feita a devida apresentação neste novo capítulo. 

Ulysses Klaue (Andy Serkis) é o primeiro vilão  a ser apresentado. A personagem (um tanto ou quanto caricatural) é um traficante de armas que tem um braço artificial transformado numa espécie de arma que é movida a vibranium (que roubou em Wakanda). A Klaue junta-se outro vilão, Erik Killmonger (Michael B. Jordan), cujas motivações vão além da tentativa de destruir a nação de T'Challa. Os actos destes dois criminosos chamam a atenção do simpático agente da CIA, Everett K. Ross, interpretado por Martin Freeman, que se junta ao elenco.





A história do filme viaja entre Wakanda, EUA e Coreia do Sul e tudo é feito com elegância, como se James Bond ou se The Man from U.N.C.L.E. colidissem no mesmo universo que um jogo de consola. Momentos de perseguições e de caos são coreografados ao detalhe e premiados com guarda roupa e acessórios de alta-costura. Ryan Coogler pensou tudo ao detalhe e não poupou em sensibilidade. Por exemplo, se houvesse a tentação de colocar Serkis a roubar cenas ou a ter protagonismo, o realizador voltou a sua atenção para Killmonger e empurrou o filme noutra direcção, afastando a ousadia expectável de criar um vilão branco e racista.

Parte do prazer do filme e da sua mensagem está na forma subtil e inteligente como dispensa ou molda discursos baseados em etnias ou raças. Wakanda é uma monarquia militarista que, no entanto, é justa e democrática. A vida em Wakanda é ao mesmo tempo urbana e rural, futurista e tradicional, tecnológica e mística. As naves espaciais ampliam os edifícios em ascensão com toques de palha; um comboio de alta velocidade passa por um mercado que vende cestas tradicionais. Um dos cenários mais impressionantes do filme é uma sala de trono ao ar livre, revestida horizontalmente com partes de árvores suspensas que cria um padrão solto e que desencadeia a divisão entre os mundo interior e exterior.





Como muitas aventuras, histórias ou lendas, Black Panther gira em torno de um drama familiar de pai e filho - há um assassinato, um vácuo de poder e um herdeiro um tanto relutante em aceitar o poder no seu todo, uma intriga patrilinear que é preenchida aqui com elementos intensos que envolvem questões de ascendência, identidade, a Diáspora africana e a fronteira entre o novo mundo e o antigo. Um fio narrativo particularmente interessante é apresentado Sterling K. Brown, cuja presença em cena é diminuta mas que consegue transmitir capítulos inteiros de sofrimento e de história.

Jordan é uma presença carismática e há momentos em que até podemos questionar se não teria sido este actor uma melhor escolha para interpretar a personagem principal. O magnetismo e a empatia entre o público e a personagem principal, desempenhada por Boseman é mais lenta mas este é um processo deliberado e bem sucedido. Tal como muitos dos seus conterrâneos, o rei de Wakanda fala num inglês com uma espécie de pronuncia sul-africana, um sotaque que convida a recordar Nelson Mandela e que sugere o papel que T'Challa em breve assumirá como diplomata internacional. A calma, a humanidade, a ética e os valores democráticos que esta personagem tem, afastam-no a milhas de todos os membros do Panteão Marvel. Falamos de linhagem real e mística, de um herói que tem a seu cargo, uma nação, uma identidade, um passado e que envolve a luta pela sobrevivência. É o primeiro super-herói com descendência africana e isso não é esquecido durante um minuto que seja.

Para o desenvolvimento da narrativa e para o engrandecimento do filme é importante o facto de que T'Challa está rodeado por uma falange de mulheres. Mulheres que o suportam com apoio maternal, militar e científico. Há um batalhão de mulheres guerreiras denominado Dora Milaje, cuja chefia está sob tutela de Okoye (Danai Gurira), a dinâmica, engraçada e inteligente irmã Shuri (Letitia Wright), a "mãe razão" Ramonda interpretada pela lindíssima e sempre interessante Angela Bassett e Lupita Nyong'o, que é Nakia, uma mulher guerreira com sangue real. 





Impulsionada e abrilhantada pelas mulheres groovy e afro futuristas, Wakanda é em si, a força do filme, a personagem principal. A nação de Wakanda é um mundo místico onde pastores patrulham as fronteiras com armas tecnológicas e roupas deslumbrantes e poderosas por causa do vibranium. Nunca tendo sido conquistada, Wakanda escapou aos traumas históricos sofridos em grande parte do continente africano, permanecendo livre dos estragos do colonialismo e do pós-colonialismo.

É um filme Marvel e isso nunca é colocado de lado, seja porque vimos máscaras, combates ou referências subtis aos Avengers. Mas no filme de Ryan Coogler a raça e a identidade são os pontos centrais. As origens importam e muito em Black Panther, que aborda pertinentes preocupações humanas sobre o Passado, o Presente, o Futuro e questiona o uso indevido e os abusos de poder. Ao enfatizar a mística e identidade africana, a criação e a libertação, o filme torna-se num símbolo de um passado que foi negado e de um futuro que se sente muito presente. E, ao fazê-lo, com brilhantismo estético, abre um mundo novo no universo Marvel e a nós, espectadores, incita a um encantamento com estas novas personagens e com o universo magnifico que as rodeiam.




"The world is changing. Soon there will only be the conquered and the conquerors. You are a good man, with a good heart. And it's hard for a good man to be a king."

-- Trailer --


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