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girl on film

05
Dez14

Peaky Blinders | Introdução

















Subtítulo: Ciganos, whisky, cigarros e nevoeiro. 

Inglaterra, fim do século XIX, início do XX. Pobreza, promiscuidade, fumos tóxicos, lama e esgotos a céu aberto… 

Foi neste cenário sombrio e histórico que surgiram os Peaky Blinders: uma espécie de quadrilha, ou gangue (para usarmos o termo mais contemporâneo). Os Peaky Blinders aterrorizaram as ruas de Birmingham. Usavam fatos de três peças, cortes de cabelo distintos e nas boinas escondiam lâminas de barbear - que eram usadas como facas em caso de lutas. “Arma” perfeita para atingir as caras dos adversários e causar danos irreparáveis. 
Este grupo problemático de jovens adultos faz parte da história de Inglaterra mas não eram os únicos. Em Manchester e Salford existiam os “Scuttlers”, Liverpool tinha os “Cornermenen” e em Londres, os “Hooligans.

Os Peaky Blinders estavam intimamente associados ao tráfico de armas, de tabaco e de bebidas. Lideravam casas de jogo ilegal. Estavam aliados a crimes organizados e muitas vezes encomendados. Eram conhecidos por estarem constantemente em lutas com gangues rivais e com a polícia. De notar, que este grupo é – tal como a nacional “Padeira de Aljubarrota” ou até o internacional “Robin dos Bosques” – verdadeiro, mas envolto em lendas de mitos urbanos. É que na verdade, para muitos dos crimes que lhes são apontados não existem provas/fontes históricas que corroborem os acontecimentos. 

Esta era a introdução obrigatória para a apresentação de Peaky Blinders, a série da BBC realizada por Steven Knight. Necessária porque é importante saber que por detrás da ficção, estão alguns factos verídicos. 

É essencial perceber que estamos a falar de uma Inglaterra frágil, saída da Primeira Guerra Mundial, a passar por muitas dificuldades sociais, económicas e políticas. Com um regime monárquico em crise, um Winston Churchill em ascensão e com o IRA, com ciganos, emigrantes italianos e judeus a servirem como pano de fundo ao enredo da série da BBC. Temos ainda a presença de comunistas considerados “inimigos da Coroa” e perseguidos como criminosos. Agora só falta acrescentem à intrincada equação: bruxedos, feitiçarias e adivinhações. 

Steven Knight faz um trabalho exímio nesta série de época. É ousado ao mostrar aquilo que poucas vezes foi mostrado em Inglaterra – a história dos gangues vista através de um contexto interno, ou seja, através da visão da própria quadrilha. Knight criou um dos dramas mais originais de sempre em televisão. Mergulhamos num mundo que aborda as classes trabalhadoras, com recurso a doses equilibradas de glamour, mas que na verdade espelha modos de vida pouco correctos e muito delinquentes. A atenção aos detalhes, aos figurinos, aos cenários, à curiosa banda sonora foram pensados e criados para atingir um padrão elevado de requinte. 




























Mas é o elenco que coloca Peaky Blinders na elite das séries. Cillian Murphy é Thomas Shelby, o líder do bando e patriarca da família Shelby - dotada de genes ciganos. Um homem destemido, profundamente abalado pela participação na Primeira Guerra Mundial. De inteligência superior, consegue aliar-se a amigos, inimigos, a Deus e ao Diabo. Tudo o que faz visa tornar os negócios dos Blinders legais, mas num mundo onde ninguém está a salvo, essa missão é quase impossível. 

E se Sam Neill foi extraordinário como Cardeal Wolsey nos The Tudor, como Inspector Chester Campbell é do outro mundo. No meio de tanto bandido, cabe a Neill o papel do vilão entre os vilões. É o típico polícia que joga em todas as frentes. Está ao serviço do Rei, mas está sobretudo ao serviço dele próprio. Um homem sem escrúpulos que ao ser desprezado pela mulher que ama, ainda se torna pior e fica sem limites para atingir os seus fins. 

A matriarca da história é Polly - a tia dos Shelby – interpretada por Helen McCrory, a actriz britânica vencedora de um BAFTA pela sua interpretação em The Queen. Polly é a tesoureira do negócio. A mulher que sabe tudo, vê tudo, opina sobre tudo, controla tudo. 

Birmingham é retratada como uma cidade grande e industrial que se tenta erguer depois da Guerra. Ruas escuras, estreitas, imundas, casas pobres para gente pobre. Em Peaky Blinders, a cidade além de cenário é ela própria uma personagem.  Todo o elenco devia ter direito a um parágrafo, mas tal feito tornaria este texto mais chato e longo.  

Reparei na existência de Peaky Blinders, por acaso, quando um amigo no facebook colocou um post sobre a série, enaltecendo a sua qualidade. Curiosa “comprei” on-line o episódio um da primeira temporada e o amor foi platónico. Os seis episódios da primeira temporada foram devorados rapidamente e os seis da segunda, ainda de forma mais veloz. 

É o fascínio perante algo extremamente bem feito, associado à curiosidade histórica de uma Inglaterra desconhecida. É um deleite ver um elenco competente e unido. É a entrega de corpo e alma às personagens que interpretam. Onde todo os detalhes são pensados – desde a roupa, passando pelos simples tiques e parando nas peculiares pronúncias e dialectos. 

É um verdadeiro drama gangster. Único e sem recurso a clichés ou estereótipos. É uma obra-prima dotada de uma banda sonora contemporânea sublime, em que Nick Cave, PJ Harvey, Arctic Monkeys e Johnny Cash (entre outros) têm tanto destaque como os actores principais. 

Sou grande defensora de que séries e filmes de cariz histórico devem ser vistas e ensinadas nas Escolas ou até mesmo em casa. Os professores e progenitores devem mostrar aos filhos que a História ensina e que por vezes repete-se. Salvaguardando sempre a menção aos exageros de uma adaptação e alertando continuamente para a problemáticas das fontes históricas - que nem sempre são viáveis ou exactas. Primeiro, é ficção, depois de trabalhada, pode ser História.

No entanto, neste caso, lamento informar os professores e pais de que utilizar a série em causa para explicar uma época conturbada da Terra de Sua Majestade não será muito boa ideia. Não quero ser responsável por expor crianças a fedelhos que bebem whisky, que fumam charutos, que fornicam prostitutas e mulheres casadas, que arrancam partes do corpo humano a outros, que roubam e por ai adiante. É que na boa verdade, em Peaky Blinders os heróis são delinquentes e ao fim de cada episódio ficamos com uma vontade imensa de fumar, de dar uma queca, de apostar em jogos ilegais e de beber um whisky em modo penalti. 

Peaky Blinders apareceu na minha vida como um escape para o luto que vou viver com o fim de Sons of Anarchy. FELIZMENTE. É assim a vida de um fã de séries. Acaba uma, vem outra. Chega ao fim um vício que substituímos por outro. E é nesta minha adoração por séries que não seguem as regras vigentes e culturalmente aceites, séries que em dez minutos de cenas, seis são polvilhados com sangue, que tenho a certeza que o meu passado selvagem de bad girl nunca me abandonou. Graças aos Deuses e aos semi-Deuses.

Peaky Blinders é a ver, a rever e a apreciar demoradamente, como se se tratasse de uma taça de morangos com chantilly que queremos perpetuar no tempo, para que o prazer do doce dure o máximo de tempo possível… 


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