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girl on film

21
Out15

Beasts of No Nation | Cary Joji Fukunaga. 2015




Título em Portugal: - 
Data de estreia: - 



O resumo de Beasts of No Nation é muito simples. É um drama baseado na vida e experiências de Agu - uma criança soldado que luta pela sobrevivência durante uma guerra civil num país (não identificado).

E que bela forma de inaugurar a produção de longa-metragens teve a Netflix. Beasts of No Nation escrito e realizado por Cary Joji Fukunaga é um daqueles filmes que, tal como Apocalypse Now e The Thin Red Line (por exemplo), mostram a beleza num contexto de horror provocado pela guerra. 

Baseado no livro de Uzondinma Iweala, Beasts of No Nation não identifica o país que serve de cenário ao filme. Num determinado momento há uma menção ao facto de que o exército nigeriano faz parte das forças de paz, mas não há mais esclarecimentos. A localização do filme não é importante. É óbvio que o realizador quer provar que a bestialidade da guerra não precisa fronteiras para se instituir. Ao longo de Beasts of No Nation fica claro que tanto as forças do “governo” como as forças rebeldes são iguais. A sede de poder e as mortes a sangue frio são executadas por ambas as partes. Se fosse possível dar ao filme um subtítulo, o ideal (a meu ver) seria “soldados sem infância, bestas sem humanidade”. 

Agu (Abraham Attah) é uma criança órfã. Parte da família foi morta e a mãe obrigada a fugir. Depois de conseguir fugir, Agu é “adoptado” pelo Comandante (Idris Elba) de uma milícia e torna-se parte de um exército formado na sua maioria por adolescentes e crianças. 

O início da película mostra a vida pobre que Agu e a sua família têm na vila que habitam. Estes momentos iniciais são profundamente encantadores e enternecedores mas contrastam totalmente com a forma abrupta e crua com que Fukunaga filma as cenas em que a família do jovem protagonista é assassinada. Essa sequência de acontecimentos é tratada com uma displicência quase cruel, expondo o facto de que na guerra, a brutalidade atinge qualquer um, transformando as pessoas em números. 

Abraham Attah no papel de Agu é o fio condutor da história. O jovem actor conduz o filme com uma segurança e astúcia tal que talvez muitos adultos não seriam capazes, no entanto é Idris Elba no papel de Comandante que consegue ser o centro das atenções. É certamente o papel mais difícil que o actor já teve que encarnar – é um líder carismático que tem a capacidade de unir centenas de homens à sua volta, a lutar por uma causa que poucos certamente entendem. No entanto a personagem de Elba é absolutamente desprezível ao usar o poder para realização e satisfação pessoal. É o típico chefe que usa a encenação de gestos, formas de ser e de estar, com roupas e assessórios exagerados para distrair atenções e convencer falaciosamente os outros. É uma personagem tão fascinante como repugnante. 

Há crítica política e até religiosa. Ambas são usadas de forma pontual e acertada. São características que marcam presença na pessoa do Comandante, nos seus discursos sobre equidade, sobre devolver o país a quem de direito, sobre o papel das mulheres na sociedade, através de cânticos e danças rituais. Todas estas encenações são aparentemente mágicas para o seu séquito que – na verdade – está sobre o efeito de drogas. 














Chorei à vontade durante metade dos 137 minutos de duração do filme. Não tanto pela sua violência mas pela clareza com que explora a perda da inocência. Não é a primeira vez que assistimos a este tipo de conjecturas num filme sobre guerra mas é muito perturbador assistir a essa mudança em crianças. Tudo piora ao sabermos que este facto não é ficção. Todos os dias, em várias partes do Mundo existem crianças que por várias circunstâncias da vida e do contexto em que estão inseridas, são transformadas em assassinos frios e impiedosos. 

À medida que o filme avança, o argumento vai tornando-se mais pesado e até surreal - reflexo das vivências a que Agu é sujeito. Jogos de cor e alucinações são usados como espelhos do estado de espírito da criança. Apesar de terminar com um espectro optimista, Fukunaga mostra Agu num diálogo brilhante e consciente de que a sua inocência não voltará. A sua vida mudou tanto que as crueldades que sofreu e que infligiu nos outros serão fantasmas para todo o sempre. 

Beasts of No Nation não é somente um filme tecnicamente impecável, com uma cinematografia magistral e com interpretações soberbas, é uma obra actual, totalmente relevante e que não deixará indiferentes os privilegiados que o verão.  



I saw terrible things… and I did terrible things. So if I am talking to you, it will make me sad… and it will make you, too, sad. In this life… I just want to be happy in this life. If I’m telling this to you… you will think that I am some sort of beast or devil. I am all of these things… but I also having mother… father… brother and sister once. They loved me.

Nota: 


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Sofia Santos: agirlonfilm@sapo.pt // blog.girl.on.film@gmail.com

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