Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

girl on film

27
Nov17

Opinião ▪ Beach Rats | Eliza Hittman. 2017



A sinopse de Beach Rats é muito simples: o filme aborda a vida de um adolescente de Brooklyn que passa os dias a passear com os amigos, a consumir drogas e a pesquisar online por encontros sexuais com homens. 

Filmes sobre adolescentes problemáticos não faltam e filmes sobre adolescentes com dúvidas acerca da sua sexualidade também não. É verdade que a sinopse do segundo filme de Eliza Hittman tem potencial para afastar os interessados, mas fica o conselho: não se afastem. A sinopse não faz jus ao filme.

Beach Rats não é somente um filme sobre adolescentes nem um filme sobre sexualidade, é muito mais do que isso. A prova maior são os prémios e nomeações que a realizadora recebeu. Hittman venceu o Directing Award no Sundance Film Festival deste ano. Foi também premiada no Montclair Film Festival, no Hamburg Film Festival, no Independent Film Festival of Boston, no L.A. Outfest e nomeada em vários outros.


Frankie (Harris Dickinson) vive em Brooklyn com a sua mãe (Kate Hodge), a irmã mais nova e um pai moribundo. É verão e o jovem passa a maior parte do tempo com amigos na praia. Bebem, fumam, consomem drogas e pouco ou nada de útil fazem. Tudo muda quando Frankie conhece Simone (Madeline Weinstein), uma rapariga que tenta obstinadamente ter uma relação amorosa com ele e que o força a encarar um aspecto que até então era secreto na sua vida: a sua atracção por  homens. Ao tentar manter a fachada de um relacionamento com Simone, Frankie continua a encontrar homens que conhece online para sexo e será apenas uma questão de tempo até ser forçado a encarar a verdade sobre si mesmo e os dois mundos em que vive não demoram a colidir com explosivos resultados.







O jovem Harris Dickinson é um incrível protagonista. A sua entrega à personagem valeu-lhe uma nomeação na categoria Best Male Lead nos Film Independent Spirit Awards, ao lado de James Franco e Robert Pattinson. A câmara quase nunca retira o jovem actor do primeiro plano. Há certos momentos do filme que Harris parece estar a protagonizar uma campanha de Moda, um anúncio de Tom Ford ou um editorial com assinatura de Mario Testino. O inglês é alto, bonito e tão expressivo que, por vezes, os diálogos são substituídos por um olhar ou por um gesto. 

A personagem é complexa e traça a batalha de Frankie com sua sexualidade. Externamente, é tudo o que um rapaz oriundo da classe média deve ser: bonito, atlético, masculino. No entanto, aquilo que os seus amigos e familiares tomam como sinal de angústia rebelde é na verdade uma máscara para esconder a batalha que trava por dentro.
Até nos sites de encontros e à distância de uma webcam o jovem usa um chapéu ou as sombras para se esconder, é como se não conseguisse reconhecer sua sexualidade. Os seus desejos e instintos são compartimentados de tal forma que parecem não fazerem parte dele. Quando se encontra com outros homens parece um robot, uma outra pessoa. 







Em casa, a mãe é completamente inconsciente acerca da situação que o filho esta a passar, atribuindo o seu comportamento errático às drogas e aos amigos. Ela tenta desesperadamente ser uma boa mãe, mas ao não saber a verdade sobre o filho, é completamente incapaz de evitar o perigoso caminho que o jovem está a seguir. 

Talvez se Frankie fosse sincero para com a mãe e os amigos estes o aceitassem sem pudores ou julgamentos, mas no entanto e porque o protagonista não se aceita a si mesmo, conduz - por acidente - os amigos e ele próprio a um perigoso caminho homofóbico.

O ritmo do filme é lento e o desempenho de Dickinson "carrega" o filme praticamente sozinho. Realizado com um "estilo de observação", o argumento depende muito do espectador pois cabe a cada um de nós captar as subtilezas de Frankie, obrigando-nos a unir os pontos, pois a narrativa resiste ao desejo de demorar mais tempo do que precisa.

Beach Rats envolve e entretém o espectador ao contar uma história sincera e sensível. Com música esparsa, cinematografia realista e pouco diálogo, a realização de Hittman permite dar espaço a Dickinson para que este brilhe de forma eximia nesta sua estreia num filme para cinema de longa duração. 

Filmado em 16 mm pela directora de fotografia Hélène Louvart, Beach Rats não deve ser comparado com outros filmes do género, tem os seus próprios méritos e é um dos filmes mais ousados e mais originais do ano.



25
Set17

Better Things | A genialidade de Louis C.K. e a excelência de Pamela Adlon



[texto original em c7nema]

Criada por Pamela Adlon e Loius C.K., a série FX é uma espécie de comédia autobiográfica. Better Things conta a história de Sam (Pamela Adlon), uma actriz, mãe divorciada que sozinha, cria três filhas. Longe de ter a vida glamourosa de uma actriz de Hollywood, Sam esforça-se para encontrar trabalho de forma a poder pagar as contas e cuidar das três filhas: Max (Mikey Madison), Frankie (Hannah Alligood) e Duke (Olivia Edward). A sua mãe, Phyllis (Celia Imrie), vive ao lado e continua a ser uma presença quase constante na vida da filha e das netas, mas a Phyllis só é permitido aparecer  quando é convidada.

A comparação (saudável) à saudosa Louie é inevitável: a abordagem aos bastidores do show business e às personagens características e peculiares do meio, o realismo das relações humanas e a cinematografia. 

Mas é na personagem principal e criadora, Pamela Adlon que está a majestade deste projeto.  Adlon, atriz, autora, realizadora, produtora é atualmente um dos rostos mais importantes da comédia norte-americana. Se Louis influenciou Adlon, ela também lhe fornece fonte inesgotável de inspiração. É uma parceria e tanto!

Em Better Things não há a habitual frustração parental que se concentra na mãe como uma mártir em vez de ser exposta como um ser humano real com ideais, desejos e necessidades. A Sam Fox interpretada por Pamela Adlon é explicita no seu monólogo interno e é muito fácil compreendermos as suas motivações. Os seus pensamentos são muitas vezes apresentados através de storytelling, uma técnica tão familiar aos fãs de Louie.




Better Things é, no entanto, uma experiência mais íntima do que Louie e é importante notar que a maternidade apesar de ser o foco central da série, não assume a totalidade do argumento. É que mesmo quando Sam é exposta às exigências das filhas, do trabalho e dos amigos, o ponto de vista da personagem principal permanece claro, a sua posição é explicita e as suas prioridades não são ocultadas. 

Feminista, sem extremismos, a série FX mostra uma mãe que encoraja as filhas a seguirem os seus sonhos e a serem fiéis a si próprias. Os ideais feministas, são espelho do próprio ativismo de Adlon e não é claramente  uma opção de marketing da série, está impresso no próprio ato de escrita.

Sam é uma mãe maravilhosa a sua abordagem perante a parentalidade é bastante inocente e por vezes árdua. Dedicada às filhas e respeitadora das suas peculiares formas de ser e de estar, tem como objetivo máximo que as três jovens se tornem boas pessoas e não apenas crianças bem comportadas. Mas a série nunca entra em território lamechas, o potencial de sentimentalismo é invariavelmente interrompido por alguns dos aspectos mais realistas da vida de Sam, como a difícil missão de encontrar "cinco" preciosos minutos para se masturbar.




Tudo isso é inspirado pela vida real de Adlon - que na vida real é mãe solteira de três filhas - e é esta ligação à realidade que torna Better Things crua, real e muito engraçada. As miúda são extraordinárias. São as crianças / adolescentes mais humanas da televisão atual. As suas histórias, vivências e gostos complementam o argumento de forma sublime. Uma é pura e inocente, outra tenta descobrir a sua sexualidade e orientações políticas e a mais velha é a típica adolescente que acha que já é adulta. 

Em cada episódio de Better Things, Sam lida com crises do dia-a-dia e no meio da "vida diária", actores conhecidos, como Julie Bowen, Constance Zimmer e Bradley Whitford, têm cameos deles próprios ou interpretam versões de si próprios.

"Escrever o que se sabe e conhece" é uma das regras fundamentais da escrita e meio caminho para o sucesso. A comédia autobiográfica pode, por vezes, ser auto-indulgente (de notar que os dramas autobiográficos, também), mas as boas e bem escritas tornam-se casos de sucesso. Usam o conhecimento íntimo das vidas dos seus criadores para expor as verdades que vão ressoar para um público que não passou pela mesma experiência. Better Things é 100% humana e 100% obrigatória.




29
Ago17

Fleabag | Temporada 1. A arte da comédia!


... Ou a comédia em torno da tragédia!

Nota da redação: sim, é uma série mais apropriada para o público feminino, no entanto, tenho a certeza que se o mais macho dos machos vir algum episódio ou a totalidade desta primeira temporada da série Amazon, não sofrerá nenhuma espécie de castração por castigo divino.

No minuto em que Frank Underwood usou o seu tempo de antena para falar diretamente com o público, muito mudou. A nossa percepção, interação e empatia com uma personagem não voltou a ser a mesma.

Phoebe Waller-Bridge percebeu isso e escreveu uma série em que a personagem principal dialoga com o espectador, só que, em vez de nos preocuparmos com as lides políticas do mundo contemporâneo, passamos a ter como foco, a vida de uma mulher que quer sobreviver, superar os seus problemas e ter uma vida sexual competente.

A magnífica Waller-Bridge é a autora e protagonista de Fleabag, uma série sobre uma mulher desenfreada que tenta sobreviver numa Londres moderna, enquanto aprende a lidar com a morte da melhor amiga, uma família disfuncional, problemas financeiros e má gestão das relações amorosas.

Para lidar com a vida difícil, Fleabag termina constantemente com o peculiar namorado, Harry (Hugh Skinner) e durante os períodos em que está solteira, dorme com quem lhe apetece de forma a evitar estar só. Fuma, bebe e provoca pessoas, tudo para evitar as dolorosas lembranças que testemunhamos quando vimos os flashbacks – usados como momentos de honestidade viciante. O argumento - escrito de forma exímia - não dá ao espectador um minuto de descanso.








Fleabag pode ser indexada entre as mais conceituadas comédias femininas de cariz sexual mas é mais mordaz e sexual do que Sex and the City e mais politicamente incorrecta do que Girls.

O humor é adulto, usado sem medos ou pudores. As piadas podem até não ser novidade para o público mas a forma como está escrita e filmada nunca antes foi feita em televisão, pelo menos, não com tanto charme envolvido.

Waller-Bridge tem um timing imaculado, uma cara bastante expressiva, um sorriso irónico e uns olhos impressionantes. É o soberbo trabalho da actriz que quando conjugado com a sua mestria na escrita que torna os seis episódios de Fleabag num dos melhores acontecimentos da televisão actual. 

Todo o elenco secundário merece elogios. Todos fazem parte da história e até aqueles que se limitam a entrar em cena para simplesmente estarem sentados no metro ou a carregar o telemóvel no café, fazem a diferença. E depois existem personagens simplesmente intitulados como “Arsehole Guy” ou “Woman in Sex shop”… e dito isto, tirem as vossas próprias conclusões!

Bill Paterson e a genial Olivia Colman são, respetivamente, “Dad” e “Godmother”, a madrasta, na verdade. Este casal são provavelmente os “pais” mais complexos da história da televisão. Se nos primeiros episódios achamos que são maus progenitores, conforme a história avança, vamos percebendo que não são só maus, são maus ao quadrado. Colman é severamente passiva agressiva, e controla a 100% o pai de Fleabag com manipulações tão incrivelmente surreais que rapidamente a tornam numa figura absolutamente horrífica. Olivia Colman é, como habitualmente, genial.

Em Fleabag existem vários tipos de dinâmicas entre as personagens. A personagem principal tanto interage de forma surreal com a família, como com desconhecidos e todas as cenas são desenvolvidas com uma precisão absoluta. Tudo tem um timing impecável e até as cenas que descrevem elementos do passado servem para tecer as personagens de forma eficiente e ininterrupta, sem trair a autenticidade do dia-a-dia da vida de Fleabag.

Fleabag mostra um olhar contemporâneo sobre a vida e ultrapassa o patamar da ficção porque é altamente relacionável. Ao contribuir com uma nova e fresca perspetiva em torno de relações desagradáveis ou com o sofrimento, a série possui um tom singular que, transmitido através de brilhante desempenho da actriz principal, "fala" diretamente connosco, mesmo quando o diálogo direto não acontece. A serie é uma comédia, é uma história crua e directa que retrata de forma intima e intensa, o luto, a solidão e a disfuncionalidade que todos nós, em certos momentos da vida, experienciamos. Com menos ou mais intensidade, todos somos Fleabag!







Que a segunda temporada não tarde em chegar. Quero mais. 



10
Jun17

Harlots | Temporada 1. A intimidade da prostituição!





“1763. London is booming and one in five women makes a living selling sex.”

São estas as primeiras palavras da nova série da Hulu, Harlots e assim, logo nos segundos iniciais, o tema central da série fica esclarecido de forma bastante clara. 

Esta espécie de apresentação pode, no entanto, enganar os espectadores. E por isso permitam-me o esclarecimento: Harlots não é uma série sobre sexo e também não emite qualquer tipo de julgamento acerca das mulheres e da profissão que aborda.

A abordagem ficcional da prostituição não é novidade na televisão. Ultimamente temos vários exemplos: há bordéis em Game of Thrones, Deadwood, Westworld, Taboo, Sons of Anarchy, Boardwalk Empire, True Detective, Ray Donovan, entre tantas outras. Obviamente que tenho que fazer uma referência mais particular à brilhante The Girlfriend Experience, que aborda a prostituição de uma forma mais intima e centrada numa única personagem. 







Vistas muitas vezes através da perspectiva masculina, as prostitutas são apresentadas como  mulheres com coração de ouro a que o cavalheiro não resiste, como prostitutas em perigo de vida em que os heróis masculinos da série têm que salvar. Às vezes só se prostituem para sustento da família e outras vezes para alimentar vícios. Algumas vezes, são simplesmente prostitutas mortas, objectos de estudo para uma investigação cientifica e policial. 

Mas em Harlots, a história das prostitutas não se limita à caridade, aos infortúnios do destino nem sequer ao sexo. As prostitutas e estrelas principais da série são acima de tudo, mulheres de negócios. 

A série Hulu, que estreou em Março, não se limita a manter um argumento cuja história se passa dentro das paredes de um bordel, a série aborda as profissionais de sexo em Londres do século XVIII. É a perspectiva e a história de vida destas mulheres que impulsiona a narrativa e como parece diferente a prostituição vista do ponto de vista de mulheres de negócios! 

Harlots é uma abordagem franca de mulheres forçadas a entrarem numa profissão por pobreza, por opção ou nascimento mas que não são tristes ou desesperadas. As cenas de sexo não são excitantes ou demasiado explicitas, nem sequer são horríveis, gratuitas ou filmadas com algum tipo de julgamento - são simplesmente um acto/exercício do trabalho.

Os corpetes não são rasgados no acto de paixão mas há saias que são levantadas por uma questão de prática ou de gestão de tempo. É na vida das mulheres - além dessas transacções pagas – que está a verdadeira história.








A família Wells está a tentar construir um pequeno império através da prostituição. Margaret (Samantha Morton) é a dona do bordel. Esta mulher já nasceu nesta vida: a sua própria mãe vendeu-a aos 10 anos em troca de um par de sapatos. Mas ao invés de se entregar à infelicidade, soube aproveitar o que o pior da vida lhe deu e conseguiu aquilo que grande parte das mulheres inglesas em 1700 nem sequer imaginaria ser, Margaret é uma empresária. É também, em certa parte, a proxeneta das suas próprias filhas, Lucy (Eloise Smyth) e Charlotte (Jessica Brown Findlay). Nesta mulher, qualquer instinto maternal que se identifique é contrariado pelo seu objectivo máximo: o de arrecadar dinheiro suficiente para comprar uma casa no bairro sofisticado de Soho e assim conseguir que o seu negócio de sexo alcance públicos com mais posses e influências. 

“Money is a woman’s only power in this world (…) This city’s made of our flesh, every beam, every brick. We’ll have our piece of it.”, argumenta Margaret. 

Mas infelizmente para a experiente mulher, há concorrência – a Madame Lydia Quigley (Lesley Manville), dona de um dos bordéis mais antigos de Londres e situado na zona mais respeitável da cidade. Lydia faz de tudo para destruir os negócios de Margaret, e vice-versa. As tácticas brilhantes e implacáveis que usam para minarem e estragarem os planos das rivais, são maleficamente fabulosas. 

Os oito episódios foram inspirados pelo icónico Harris’s List of Covent Garden Ladies,  um directório para a prostituição de Londres, escrito por clientes e proxenetas no século XVII. Esta espécie de guia foi publicado por quase 40 anos. Era uma tipo de “guia auxiliar” para os turistas e clientes do “comércio sexual” e eram compiladas as especialidades, os talentos e os atributos físicos das prostitutas na área. 

Criada por Moira Buffini e Alison Newman, a equipe de produtores e argumentistas da série é em grande parte feminina, o que explica parcialmente por que Harlots tem um novo olhar sobre esta histórica profissão.








A escolha de Brown Findlay (a Lady Sybil da saudosa Downton Abbey) como a destemida Charlotte foi um golpe de génio. Entre o pó de arroz, as excêntricas vestes e as perucas, é uma linda mulher e profissional audaz - um contraste com os papéis limitados das damas da época. 

Harlots não é uma proclamação feminista que reformula o negócio do sexo como algo de nobre. É uma série em que as prostitutas são tratadas pelos argumentistas ao mesmo nível de humanidade e de importância que aqueles que historicamente usaram e definiram este negócio. São abordadas, sem pudores relações entre pessoas do mesmo sexo e inter-raciais. Aqui, os homens desempenham um papel de apoio para as estrelas principais da série: as mulheres complexas, astutas e corajosas que, tal como os seus clientes, têm ambições e objectivos.

Uma nota de grande destaque ao guarda-roupa e cenários. São absolutamente arrebatadores. 




Pleasure has a price!

13
Mai17

Opinião ▪ King Arthur: Legend of the Sword | Guy Ritchie. 2017




As boas notícias são: 
- só são necessários cerca de 15 minutos para ver Charlie Hunnam em tronco nu. 
- cenários, banda sonora e sobretudo guarda roupa e acessórios – são deslumbrantes. 

A má: 
- As histórias medievais, romances de cavalaria e folclore em torno da mítica lenda do Rei Artur que todos conhecemos e pelas quais somos fascinados dá lugar um argumento que parece ter sido escrito por J. R. R. Tolkien ou por George R.R. Martin e à qual é acrescentada a alucinação normal da cinematografia de Guy Ritchie


Geralmente gosto da ousadia do realizador inglês. Gosto muito das suas opções estéticas. Para mim, The Man from U.N.C.L.E. foi um dos melhores filmes de 2015, por muitas razões diferentes mas sobretudo porque é um filme de estilo, com estilo e assume isso. 

Mas em King Arthur: Legend of the Sword arriscar colocar o estilo à frente da substância não correu tão bem. Conforme mencionei em cima, não há nada a apontar no que à estética diz respeito. Todos os detalhes são soberbos. É a transformação do misticismo histórico e da magia do Ciclo Arturiano em ficção científica que coloca o filme num limbo muito frágil. O filme é um espetáculo de efeitos especiais, para o bem e para o mal. 









Também no elenco há problemas. Jude Law ainda está muito ligado à personagem Lenny Belardo de The Young Pope e Charlie Hunnam continua com “tiques” Jax Teller. Nenhum dos dois está propriamente mal mas este é um daqueles filmes em que cenário, roupas e más opções de produção e realização ofuscam as interpretações. Aidan Gillen anda pelo filme com muito de Petyr 'Littlefinger' Baelish e o elenco feminino é quase inexistente. Um acto quase criminoso porque somos quase proibidos de apreciar a beleza de Astrid Bergès-Frisbey

Além da abordagem científica desta fábula histórica é na história, no roteiro e na edição que estão os grandes problemas do filme de Guy Ritchie. Existem partes do filme que começam e terminam tão abruptamente que não fazem qualquer sentido para o espectador. 

A hipótese de uma segundo parte ficou bem patente no fim do filme e talvez por isso, a personagem de Merlin (apesar de omnipresente) fique para “segundas núpcias”. A meu ver, esta é uma ausência imperdoável. No entanto tenho muito medo do que virá da mente de Ritchie, sobretudo de tivermos em conta que, para o realizador, o Rei Artur - um dos protagonistas da crônica Historia Regum Britanniae (História dos Reis da Bretanha), composta por Godofredo de Monmouth - é no filme, um ladrão criado num bordel.

E para terminar caro Guy: é um grande erro construir um filme inteiro em torno do paradeiro de uma espada. A lenda de Excalibur não é tão importante como a do homem que nasceu para a manejar. É pena que não tenhas percebido isso! 


08
Mai17

Opinião ▪ The OA. T1 | Zal Batmanglij. 2016





Se Stranger Things cativou o espectador pela nostalgia e pelas magníficas referências a acontecimentos / objectos de culto, The OA impressiona porque aborda uma das questões mais complexas da Humanidade, a Fé. No entanto, convém que fique claro que The OA não é de todo uma série com associações a igrejas e não há nenhuma abordagem institucional acerca dessa crença.

Dito isto, é precisamente esta abordagem à Fé que faz com que a série conquiste ou afaste públicos. Para vermos estes oito capítulos criados por Zal Batmanglij e Brit Marling temos que ter a mente aberta e é obrigatório ter um olhar adulto e crítico perante aquilo que estamos a ver. Alguém que não tenha consciência da sua posição perante a vida e até uma ideia muito concreta sobre a morte, dificilmente perceberá aquilo que The OA nos mostra: ter Fé num momento de circunstâncias intensas.

Brit Marling interpreta uma mulher chamada Prairie Johnson, nascida na Rússia, mas adoptada e criada nos EUA por Abel e Nancy Johnson (Scott Wilson e Alice Krige). Prairie ficou cega depois de um acidente de viação durante a infância (ainda na Rússia). Na adolescência, Prairie desaparece e reaparece sete anos depois, com a visão restaurada. E assim, logo no primeiro episódio as perguntas surgem em catadupa: o que aconteceu? Porque desapareceu e como? Porque é que recuperou a visão? Como e porquê voltou?

Depressa percebemos que ao longo desses sete anos, Prairie e várias outras pessoas de diferentes origens - mas com algo de muito peculiar em comum - foram mantidas numa espécie de laboratório subterrâneo para serem observados e estudados por um cientista interpretado por Jason Isaacs.

Já em casa, Prairie reúne um curioso grupo de pessoas para lhes contar a sua história. Todas as noites, numa casa abandonada, a mulher partilha o seu conto com três jovens do ensino secundário: um problemático rapaz chamado Steve Winchell (Patrick Gibson), um jovem transgénero chamado Buck Vu (Ian Alexander), Alfonso 'French' Sosa (Brandon Perea), um rapaz com uma vida familiar bastante complicada e uma professora nervosa, introvertida mas muito "amiga do seu amigo" apelidada de BBA, diminutivo de Betty Broderick-Allen (Phyllis Smith).













À noite, Prairie conta detalhes da sua vida. Começa pela sua vida da Rússia e depois conta o que passou ao longo dos sete anos em que foi mantida em cativeiro, numa prisão de vidro situada numa antiga mina. No início, existem quatro presos, depois cinco e com a adição do novo elemento, a ideia que a fuga pode ser possível começa a ganhar forma. O mais interessante nisto tudo é que nós enquanto espectadores continuamos com dúvidas. Muitas dúvidas: qual era o propósito deste cativeiro? Como é que a sua infância na Rússia se relaciona com sua vida nos EUA antes e depois do seu rapto? A personagem Jason Isaacs é um cientista legítimo ou algum tipo de maníaco? Qual é a conexão da Prairie com os outros prisioneiros? Por que é necessário que Prairie conte os capítulos da sua história a quatro estranhos e porquê apenas quatro pessoas? É apenas uma maneira de narrar um flashback? E acima de tudo, o que é OA significa?

Este elencado de perguntas é só um exemplo das dúvidas que assolam o expectador e que cativam a nossa atenção.  Pelo meio, surgem outras questões, incluindo a necessidade que as personagens têm em  executar uma série de movimentos corporais numa ordem precisa. No início, estes movimentos parecem ridículos, no entanto, quando os movimentos ritualizados são executados, sobretudo nas cenas finais da série, somos assombrados pela emoção e pela perfeição do momento. 

Insisto, The OA não é fácil. Como já mencionei, a série está repleta de dúvidas, traços de carácter estranho, referências esquivas e uma narrativa nem sempre linear. Sim, um espectador com menos paciência pode ficar irritado. Mas, quem gosta de ser desafiado, continua a ver. Também nós somos um dos ouvintes das histórias nocturnas de Prairie. O oitavo e ultimo episódio fundamenta muito daquilo que vimos, mas ficamos com um sentimento parcial de satisfação, por falta de uma palavra melhor. É um desenlace desenfreado de forma intencional e que está de acordo com o tom e o propósito de toda a série.

Marling e Batmanglij (que realiza) não criaram a perfeição, mas criaram algo muito eficaz. Muitos espectadores desistirão de The OA no primeiro episódio. Outros, vão ver a série até ao fim e vão odiá-la pela pretensão. Mas aqueles que, como eu ficaram fascinados ao primeiro segundo, vão gostar de ficar com dúvidas e são estas pontas soltas que nos levam a uma consideração da mortalidade, da vida após a morte, a conectividade da vida e a possível relação dos planos físico e metafísico. Estes oito episódios podem não ser para todos, no entanto, se somos intrigados pela profundidade, pelo mistério e beleza com que a história é contada, queremos mais.

The OA é uma das séries mais significativas de 2016. O trabalho de Marling e Batmanglij é incrivelmente bom. The OA abala a nossa percepção da realidade. É poética, surreal e feita com uma fotografia assombrosa - graças ao trabalho de Lol Crawley. Ouso mesmo dizer que, à sua maneira peculiar e distorcida, é uma obra de arte.



“I want you to close your eyes. I want you to imagine everything 
I tell you as if you’re there yourself. As if you are with me. As if you are me.” 



Contacto

Ana Sofia Santos: blog.girl.on.film@gmail.com

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

feira das vaidades

planeta pop + girl on film

Soundtrack by Girl On Film on Mixcloud

A outra casa

Em destaque no SAPO Blogs
pub